sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Esperando um taxi

 

Imagem Pixabay

Ola!! 

Demasiado tiempo. ¿Cómo estás?

            .

Me perguntei ao receber seu bilhete:

quando a gente começa a amar?

Demasiado tempo

é preciso para sabê-lo.

E para sabê-lo,

é preciso ter amado pelo menos uma vez.

Raízes profundas não se soltam da terra facilmente

O filme vivido por nós não foi um embuste

mas permite alguma interpretação pelos atores.

Já que você veio, aceita um café?

Sempre gostei do seu jeito triunfante.

Me diga, então, como estão as meninas,

enquanto comemos uma fatia de bolo.

Ainda somos duas pessoas genuínas?

Aceita mais um café, coma um pedaço de pêssego

Volte outras vezes, se houver atalhos, aproveite-os.

 

                                                    José Carlos Sant Anna,

                                                                25/agosto/2025


quarta-feira, 30 de julho de 2025

Marina, a fadinha

 

imagem Pixabay

Nada, mas nada mesmo, parecia indicar — além da chuva que caía torrencialmente sobre a cidade — que o início da noite seria tão desgastante emocionalmente para pai e filha. E o foi.

Entramos no elevador e marcamos o oitavo andar. Ronronando, o bicho começou a subir normalmente. Descontraídos, sem imaginar que o tempo pode mudar a sorte de qualquer um, subíamos como pássaros distraídos quando “de repente, não mais que de repente/fez-se triste o que se fez contente”, como está posto poeticamente no Soneto de Separação, de Vinicius de Moraes. Entre o quinto e o sexto andares, o bicho emudeceu. Parou, sem ruídos estranhos.

O verso elucida como o inesperado acontece, seja sob os céus de Paris, nos jardins de Luxemburgo, ou no Caminho das Árvores. O inesperado sempre surpreende o nosso cotidiano, surgindo assim, "de repente", e ferindo rebordos inimagináveis.

Um sentimento perpassou aquele instante. Foi o que senti quando ela me olhou transfigurada. Absorto, eu passava a situação em revista — como um militar faz com a tropa — para entender por que passávamos por aquilo. Como explicar a mim mesmo que submetera minha filha a esse suplício? Foi involuntariamente, é verdade, mas a submetera. Foram 40 minutos em pânico dentro daquela cabine, ainda que iluminada. Em pane, eu e a filha, enquanto aguardávamos o técnico da Otis tirar o elevador da sua passividade.

Explico-me melhor.

Chovia em cântaros. Eu tinha o compromisso de entregar um pacote de livros a um amigo na Estação Rodoviária. Para tanto, saí pelas vagas da garagem à esquerda, desocupadas naquele instante. São duas vagas "presas" — como chamamos por aqui as vagas onde um carro bloqueia o outro. Decidi, então, "tocar o bonde à Lapinha" (jargão antigo dos baianos para dizer que vamos cumprir uma tarefa com pressa).

A Estação Rodoviária é perto de casa; assim, em 20 minutos, apesar do temporal, eu já tinha ido e voltado. Estacionei no corredor da garagem, liguei para minha filha e, inopinadamente, pedi que ela descesse para inverter a posição do carro dela, uma vez que, após o jantar, ela voltaria para sua casa (embora a nossa também seja dela). É aí que a porca torce o rabo.

Ouçam-me com atenção e me digam se torce ou não torce!

Minha filha tem fobia de elevador, e eu sei disso. Não fazia sentido pedir para ela descer sozinha. Quem disse que Freud explica? Eu devia estar com a cabeça no mundo da lua, "viajando" nas nuvens sem perceber. Ela desceu e, claro, acabou presa comigo. Sabe, caro leitor, na maioria das vezes ela sobe para o nosso apartamento pela escada e só usa o elevador se for comigo. Se não estou em casa, ela vai de escada. Se estou, eu a acompanho até a garagem, ela vai embora e eu retorno de elevador, pois não tenho esse medo.

Entendam-me, por favor: não é um pavor recente. Já dura 27 anos, a idade do prédio. Compreendeu? A analista não resolveu o problema, o que eu posso fazer? E claro, você, leitor, já atingiu o ponto fraco: acha que eu poderia ter evitado esse dissabor e essa experiência amarga. Pois é exatamente o que eu também acho. Desse pensamento nasce o quase remorso.

Mas nem tudo é tão ruim que não possa piorar, diriam os pessimistas. Felizmente, há o outro lado da moeda; a outra margem. A vida é uma realidade frágil, por isso as fadas voam no reino da fantasia realizando proezas. Neste caso não houve fadas, mas sim a solidariedade de uma vizinha de apenas 11 anos. Marina é o nome dela.

Quando soube que éramos os "exilados", Marina sentou-se no tapete de entrada do seu apartamento para aguardar o técnico. De vez em quando, levantava-se, batia na porta do elevador e perguntava, quase aos gritos, se estava tudo bem. Fez isso continuadamente. Assim, ela nos manteve espertos e vivos, em sentido figurado, com os olhos fixos no lado bom das coisas.

E agora que os céus estão limpos, agradecido, digo em voz baixa: Marina foi a luz que cintilou enquanto aguardávamos a retomada da normalidade; foi a flor que nos acolheu quando a porta finalmente foi aberta pelo técnico.

 

José Carlos Sant Anna,

19 de julho de 2025

terça-feira, 10 de junho de 2025

Dia Branco - Geraldo Azevedo (*) (**)

 

Forró sinfônico ao vivo, Concha Acústica do TCA.
Foto do evento pelo meu smartphone.

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo
Eu lhe prometo o Sol
Se hoje o Sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça, na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto, esse canto de amor, oh
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo
Eu lhe prometo o Sol
Se hoje o Sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça, na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar

E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Comigo
Comigo

Composição: Geraldo Azevedo / Renato Rocha



(*) A Orquestra Sinfônica da Bahia apresenta “São João Sinfônico com Geraldo Azevedo”, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, celebrando os 80 anos de vida deste grande artista pernambucano. O concerto apresenta músicas que marcaram sua carreira e clássicos do repertório do São João, sob a regência do maestro Carlos Prazeres e participação do sanfoneiro Marcelo Caldi.

https://www.ba.gov.br/tca/eventos/183/sao-joao-sinfonico-osba-e-geraldo-azevedo

(**) Geraldo Azevedo de Amorim (Petrolina, 11 de janeiro de 1945 um compositor, cantor e violinista brasileiro). É conhecido por sucessos como "Dia Branco", "Táxi Lunar" e "Dona da Minha Cabeça", e por importantes parcerias com Zé Ramalho, Alceu Valença e Elba Ramalho. Geraldo é um dos maiores artistas da música popular brasileira, de forte expressão e contribuição para a música nordestina, unindo ritmos como frevo, forró, xote, maracatu e baião em suas canções. Exímio autodidata, é violonista desde os cinco anos de idade. 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Geraldo_Azevedo

quarta-feira, 14 de maio de 2025

No café

 

Imagem Pixabay

Finjo não ver o vento balançar
nas rochas nuas, encasteladas,
sobrepostas à delicadeza
da tua taça de rubiácea.

E se ao menos o café parisiense rasgasse
este coração à deriva e colhesse
o malmequer cansado dos dias
convicto, eu desvelaria outras sombras.

Lá a indiferença dos teus afagos
colados à sombra do teu chão,
e perto dos meus lábios, existiria,
na tentação absoluta que tu não vês.

Lá, além das blandícias das peles
e das mulheres, na angústia
de brumas tangíveis,
eu desbarataria a solidão barricada.

Por entre os dedos, resignado,
nada em mim te repele.
Confesso, sobrevivo aos mistérios
do meu café parisiense.

Lá noites estreladas prolongam
a melodia dos teus olhos castanhos,
hálito de anjos, que as palavras criam. 


José Carlos Sant Anna, 

reeditado

 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Judith

 

Imagem Pixaby

Ela não tem pudor com as palavras; escreve-as como se tomasse um banho de rio, sobretudo se as usa para nomear objetos, pessoas ou fatos — não importa. Ela diz o que sente. Ou sente o que diz, como se prolongasse aquele sol do meio-dia ou estivesse comendo figos em calda. É o que me parece quando ela se lambuza com as palavras em seus bilhetes.

Por exemplo, ela transcreve a letra e nomeia uma valsinha de Chico Buarque e Vinicius de Moraes como samba, para acentuar o que leu nas entrelinhas da minha crônica. E o faz naturalmente, no calor da hora. No calor da escrita. Na tampa. Sem releitura. Sem censura.

Ela desconhece — ou seriam a emoção ou a pressa que a fazem meter os pés pelas mãos? — que o ritmo do samba é repetitivo e quase sempre vem acompanhado de instrumentos acústicos e de percussão, enquanto o ritmo da valsa, ternário, é lento, de movimentos suaves e fluidos, aquele que dá voltas, como um par o faz no salão ao ouvir seu compasso. E, se este interlocutor lhe diz qualquer coisa sobre a impropriedade desse uso, ela dá de ombros, como se dissesse: “descomplica, se você me entendeu. Eu quero é libertar o gigante do alçapão para a alegria de Gurgel, um dos senhores da escrita criativa".

E, enquanto os céus não desabam, esse enredo, que não se tornará um samba, me faz recuar “dez casas” ou anos neste cabide. E o faço para brincar com as palavras, que é um modo de manter a chama acesa e por saber que toda imagem corrompe, anula ou inverte um sonho no dilúvio.

Aguardávamos ansiosos a mestra — mestra na acepção da palavra é o que ela sempre foi, pois deixou marcas indeléveis em sucessivas gerações — quando, às 14 horas em ponto, ela entrou na sala. Fitinha na cabeça e tênis, sem meias. Avançada para a época e para uma sala de aula em plena universidade. Uma ausência que nos consome e nos faz sentir seu hálito ainda hoje.

Curiosamente, após “a chamada”, ela avisou que não a repetiria nas aulas subsequentes, uma vez que os alunos passariam a ocupar a cadeira com o respectivo número no Diário de Classe. Assim, se a cadeira não estivesse ocupada, o aluno seria considerado ausente. Esta foi uma das muitas idiossincrasias da mestra. E quem não as tem? Mas isso não nos desencantou, a mim e aos colegas, pois o que veio depois desanuviou a primeira impressão. Éramos os neófitos, e ela, a mestra.

E que fique claro, como o branco da roupa de Clarindo Silva da Cantina da Lua: não me lembro da mestra por essa singularidade, que não passa de um detalhe, e sim pelas lições sobre a literatura, sobre o fazer e o ler ficção — nela incluída a poesia, “a mais pura das ficções”. Ela, a mestra, o fazia bem, com rigor, clareza, conhecimento, e não retirarei, aqui e agora, essas lições das prateleiras interiores ou dos livros que herdamos de sua pena. Predominava, à época, a escrita à mão ou na Lettera 28 ou 35, com seu ruído e engrenagens mágicos. Nelas, fazíamos um pequeno nada parecer muito grande, para descobrirmos depois que não era bem isso, muito menos aquilo.

Como suas palavras permanecem, saibamos com penhor que a professora passeava pelos jardins da sala de aula com desenvoltura, em perfeito equilíbrio no embate com as coisas da literatura, inaugurando sempre uma rua nova para deleite dos que já tinham cruzado os umbrais desse casario, tinham se curvado ante as ampulhetas do banquete que as palavras propiciavam e se deliciavam com o entorno, como se fosse o café da esquina. Nada ficava para trás nas escaramuças com as palavras. Suas águas ainda percorrem, sem fechaduras, taramelas ou cadeados, antigas estâncias entre os muros da universidade.

E os sóis que em mim se arvoram me fazem dizer que falta faz àquela menina uma dessas pequenas lições para não confundir as fronteiras do real e do fictício — que falta faz ela não ter sido colega de turma! — ou do que é tomado como “fingimento” na obra literária. Se ela soubesse... “A obra é a soma de todas as leituras; se permanece na gaveta, não há leitura, e se não há leitura, não há obra”, dizia a mestra. Se soubesse disso, ela repensaria que o que há na sua busca ou o que há cavado na sua túnica não está nas entrelinhas, mas sim em esteios abertos. E, se isto é verdade, pode haver lugar para um Roberto Carlos ou para um Dom Juan Carlos apócrifo, como ela sugere.


José Carlos Sant Anna,

janeiro de 2025.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

O auxiliar de mesa

 


Para início de conversa, o jovem aprendiz da cantina italiana tinha fair play. Aliás, o mais adequado seria afirmar que ele tinha jogo de cintura, o que todo garçom precisa ter para desempenhar bem suas funções. Nesse caso, embora ele estivesse engatinhando no serviço, pelo andar da carruagem, se pressentia, o jovem parecia muito próximo de tornar-se um feiticeiro, ou seja, um descolado garçom, pois tinha humor, presença de espírito, finesse e energia para um aprendiz — mas um ajudante de mesa, o que ele era até então.

Uma funcionária mais antiga acompanhava os passos do aprendiz à meia distância, orientando-o junto aos clientes, e ele, para encarar aquele pequeno mundo da gastronomia, seguia sua intuição.

    Ao chegar perto da gente, solícito, ele perguntou:

    – Um filé à parmeggiana é pra esta mesa?

Meio irônico, perguntei-lhe se o filé estava pronto na cozinha esperando o nosso pedido, pois fora muito rápido o atendimento.

    Ele balançou a cabeça e anuiu, dizendo-me:

    – O restaurante está vazio, doutor; é Carnaval, o cliente aqui não fica esperando, o senhor conhece a Casa e sabe disso.

Ele não me pareceu contrafeito na resposta, embora não tivesse acrescentado outra palavra ao breve diálogo que tivemos. Sorrimos, satisfeitos. E ele ainda esperou um momento, caso houvesse algum ruído; não havendo, ele se retirou, solícito. E jantamos como se estivéssemos num mirante. Findo o jantar, aguardávamos a sobremesa.

Teria sido premeditado? O aprendiz ia passando pela minha mesa já desnuda da louça do jantar, mas sua fiel escudeira fê-lo recuar dois passos para nos servir a sobremesa que repousava na bandeja. Perguntei-lhe, então, se não tinha sentido o puxão do anzol, e ele, bem-humorado, disse:

– Pela gola, doutor, sorte minha que o senhor não me apanhou pelo pescoço, pela jugular.

Sorrimos todos novamente. Depois de um tour discreto pelo salão, ele voltou e, dessa vez, bem descontraído, antegozando suas palavras, perguntou:

– Mais alguma coisa, senhor pescador?


José Carlos Sant Anna,

4 de março de 2025.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A taurina

 

Ainda exala um cheiro bem forte do corpo da taurina. E ele não perdeu o bonde, como se vê, por isso repete ansioso: houve, sim. Do verbo haver empregado com o sentido de existir. Sempre há qualquer coisa, em qualquer reino, Dinamarca ou não, verdade última, queira-se ou não. É o que todo mundo diz. E as coisas acontecem num piscar de olhos. E, ao abri-los, logo se descobre que o sol já recortou as nuvens, mas não é o ponto final da história. Houve, sim, qualquer coisa, sem adiar o dia. E ele se pergunta: o que teria havido para se ter tanta certeza de que verdadeiramente houve, embora não tenha virado manchete? Não, não foi um caso de amor riscado à canivete no tronco da goiabeira até porque, na idade desses pombos, tais arroubos ou arrulhos, ainda que intensos, seriam um destempero. O certo é que ele não saberia dizer o nome da coisa ou não quis dizê-lo mais ou menos com receio de estar cometendo um erro. É certo. Eles sabiam que havia um desejo de arder naquela cana entre um canino e outro depois da broca ter rasgado um molar para a entrada de uma coroa. Sim, houve um prenúncio, por assim dizer, um chamado, uma estreita possibilidade, pois havia um canal que os unia e os desvelava em tempos de alquimia. Houve, sim. É certo também, quase dez dias de hiato, que um pequeno jorro cuja saliva se mantém intacta, insolúvel, não era ficção porque o galo não parou de cantar nas madrugadas, o beijo chegou sem ser anunciado e o que parecia efêmero ficou parado no ar como um beija-flor. Como se sabe, o melhor encontro é sempre o penúltimo e, pela casa adentro, ele imagina que haja, entre interrogações, uma canção de espera nos lábios da taurina que vestia uma blusa lisa, saia estampada, máscara, touca, jaleco e uma natureza desarvorada no alçapão. 


José Carlos Sant Anna, 

16 abril de 2025.


Notícia

  O blog estava com os comentários totalmente desativados.  Liberei o acesso às postagens, mas acabei esquecendo de liberar os comentários. ...