Foto: arquivo pessoal
Chove.
São gotas inescapáveis na janela
que se dissolvem em espelho de
vidro
onde o ontem e o agora são
inescapáveis também.
E o horizonte se dobra sobre a calçada,
e as janelas vizinhas se tornam
olhos lacrimejantes,
e a rua não é mais caminho, é apenas
fluxo,
e o asfalto se rende à vocação de rio
enquanto eu mantenho meus
rascunhos
longe do hálito de vidro para
que
não se tornem um indesejável borrão
ou não virem espuma
nas gotas em que a cidade se dilui.
Já não sei mais onde
termina
o vidro e começa o eu.
José Carlos Sant Anna,
15 de maio de 2026




