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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Metamorfose

 

            Foto: arquivo pessoal

Chove.

São gotas inescapáveis na janela 

que se dissolvem em espelho de vidro 

onde o ontem e o agora são inescapáveis também.

 

E o horizonte se dobra sobre a calçada,

e as janelas vizinhas se tornam olhos lacrimejantes, 

e a rua não é mais caminho, é apenas fluxo,

e o asfalto se rende à vocação de rio

 

enquanto eu mantenho meus rascunhos 

longe do hálito de vidro para que 

não se tornem um indesejável borrão

ou não virem espuma 

nas gotas em que a cidade se dilui.

 

Já não sei mais onde termina 

o vidro e começa o eu.

 

                José Carlos Sant Anna,

                15 de maio de 2026

terça-feira, 21 de abril de 2026

Dá-me a beber I

 


poderia ser chamado loucura

quando escrevo algo

na vida provisória dos disfarces

o que é fato é que eu não acharia 

surpreendente

coser palavras ao teu corpo como quem,

arisco, o habita, coroado de renúncias,

enquanto arranjos indecisos

chovendo cântaros de desejos

desgarram-se das minhas mãos

sob um vento leve que modela seu rosto.


                    José Carlos Sant Anna,

                    Reeditado

 


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Clamor

 

Imagem Pixabay

Descabido, penso diferente

do que sonho, embora o inefável

me acene tão leve, por acaso

mais leve que claro, sem ferir

 

o corpo que contraio. Assim, não me

aferro ao amor da existência que me

fere a pele, aguça minha sede, aflige

meu sono e me abandona às margens

 

dessa vida em que me diluo sem saber

se o que em mim estava me subjugava

ao nada ou é o excesso que se move

 

como um rio, ou é uma febre que só

a si mesma se compara e distende-se

por dentro como um par de asas.


                    Dos meus alfarrábios

                    José Carlos Sant Anna

                     


         

domingo, 30 de novembro de 2025

Meada

 

Imagem Pixabay

A luz. 

Lá, sob a porta,

a perder-se de si 

e, ao fundo, 

a foto em preto e branco

a perder-se de nós


e desaproximam-se no vácuo

as formas da voz. 


E se movem.

 

Daqui eu vejo a imagem imprecisa.

 

O que vês, meu bem?

O que soa estranho?

 

Oh, Odete, que falta faz o que 

não se aprende na escola 


ou nas dobras da lama ou do limo

ou no avesso do instante 


Foi por isso que você voltou? 

Tomo o seu tempo? 


Não me deixe, 

por favor!

 

Tomar o meu tempo?

 

São poucas as linhas da meada


São urdiduras nas palavras medidas

no arcabouço ou no calabouço

a ferir-me desde dentro.

 

José Carlos Sant Anna,

28 de outubro de 2025


sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Esperando um taxi

 

Imagem Pixabay

Ola!! 

Demasiado tiempo. ¿Cómo estás?

            .

Me perguntei ao receber seu bilhete:

quando a gente começa a amar?

Demasiado tempo

é preciso para sabê-lo.

E para sabê-lo,

é preciso ter amado pelo menos uma vez.

Raízes profundas não se soltam da terra facilmente

O filme vivido por nós não foi um embuste

mas permite alguma interpretação pelos atores.

Já que você veio, aceita um café?

Sempre gostei do seu jeito triunfante.

Me diga, então, como estão as meninas,

enquanto comemos uma fatia de bolo.

Ainda somos duas pessoas genuínas?

Aceita mais um café, coma um pedaço de pêssego

Volte outras vezes, se houver atalhos, aproveite-os.

 

                                                    José Carlos Sant Anna,

                                                                25/agosto/2025


quarta-feira, 14 de maio de 2025

No café

 

Imagem Pixabay

Finjo não ver o vento balançar
nas rochas nuas, encasteladas,
sobrepostas à delicadeza
da tua taça de rubiácea.

E se ao menos o café parisiense rasgasse
este coração à deriva e colhesse
o malmequer cansado dos dias
convicto, eu desvelaria outras sombras.

Lá a indiferença dos teus afagos
colados à sombra do teu chão,
e perto dos meus lábios, existiria,
na tentação absoluta que tu não vês.

Lá, além das blandícias das peles
e das mulheres, na angústia
de brumas tangíveis,
eu desbarataria a solidão barricada.

Por entre os dedos, resignado,
nada em mim te repele.
Confesso, sobrevivo aos mistérios
do meu café parisiense.

Lá noites estreladas prolongam
a melodia dos teus olhos castanhos,
hálito de anjos, que as palavras criam. 


José Carlos Sant Anna, 

reeditado

 

Trilogia

Entre a boca e o vinho,  a eternidade dura o espaço de um sopro. Herberto Helder I. A ESPERA A MADEIRA DA MESA RANGE . É o calor que a s...