
É claro. Zeloso, muito zeloso,
abro o guarda-chuva para uma sem noite nuvens. Um céu de brigadeiro. E me contemplo. Absurdamente zeloso.
É claro, onde já se viu, estapafúrdio e noturno, numa cidade tão quente como
esta em que vivemos abrir-se um guarda-chuva à noite? Qualquer cidadão que
traga a cabeça no lugar e os pés no chão achará absurdo esse gesto cômico ao se
deparar com a cabeça coberta por uma guarda-chuva à noite. Por cima da cabeça,
é claro, não poderia ser de outra maneira seu uso. O gesto é maquinal uma vez
que a ponte, antes, era um elo, uma ligação, não seria exagero dizer íntimo, do
curvar-se paulatino entre os protagonistas desta história: eu e ela. Não há
dúvida: agora Inês é morta e descansa em paz ao lado de Pedro, não é mesmo?
Ainda que a ponte esteja interditada, um cappuccino a dois viria a calhar.
Parcialmente interditada, mas não é tudo, você há de convir, leitor. Ela, a
protagonista, e não Inês, proibiu quaisquer passos em sua direção feitos por
mim. Suspeito é o que sou, e não um delituoso. É só uma suspeita. Nada mais.
Ponto final. E se eu lhe mostrasse minhas pantufas, são as mesmas que revelam o
tamanho da minha preguiça, pois me recuso a pensar em outra coisa, salvo a
interdição. Creia em mim. Creia. Como me recuso a escrever qualquer coisa para
salvar as aparências, ouso dizer-lhe: o que ela ama, são as minhas pantufas. E
não me incomodo com o fato de não compreender tudo que ouço sobre a interdição,
o importante não são as rosas que eu deixava na sua varanda todos os dias, são
as pantufas, são elas que importam. Ela me queria todos os dias e às pantufas.
Sem as pantufas, ela não me vê completo, arrota sem cerimônia em gestos e
palavras. Pense em alguém que, sem culpas e remorsos, se lambuzasse de
pantufas. É ela. Quantas mulheres tão próximas viram minhas pantufas e se
entregaram às fantasias? Quantas vezes pediram que as deixasse em suas mãos.
Falavam da sua maciez, tomavam-nas nas mãos como um brinquedo. Mas ela, a que
se acreditava dona, não queria que ninguém as visse, que as tocasse. Não
queria vê-las usurpadas. Há algum mal vê-las estiradas ao sol? Me equilibro nas
histórias das pantufas, recubro-me de razão quando me descubro um skatista na
hora de escrever. Queria mais? Queria mais? Pois dou-lhe o resto. Olho
para os lados, a noite continua quente e o guarda-chuva permanece aberto, um
teto inútil para ideias vazias. Decido, então, que o skatista precisa descer do
corrimão. Tiro as pantufas. Deixo-as ali, exatamente no início da ponte
interditada, alinhadas e macias, esperando pelo próximo transeunte ou por ela,
caso decida violar a própria proibição. Sigo descalço pela calçada quente.
Afinal, leitor, sem as pantufas eu posso até não ser completo, mas pelo menos
já não preciso carregar o peso do que ela amava em mim.
José Carlos Sant Anna,
12 de outubro de 2025.