Imagem Pinterest
Pus as palavras ao lado: as
cinzentas de um lado e as claras do outro, escrevendo-as com os dedos enquanto
a carne pulsava. Tinta negra no seu dorso claro, o que fazia a alegria de Berta
— a professora que turvou meus olhos com lança-perfume e depois me tomou nos braços, escavando o meu corpo como se fosse uma página aberta da minha própria escrita.
Um corpo a corpo fluido que me
fazia esquecer a queimação nos olhos e me entregava à outra — àquela gramática
em que ela me iniciava. O quarto girava na cadência dessa gramática viva. Eu
estava ali, sem entender o abismo das mãos em busca do corpo dela e dos dentes
das letras na sua boca de mil bocas, uma sede ardente me engolindo,
despenhando-me no abismo que ela mesma escrevera.
Ali embaixo, no escuro da
semântica de Berta, percebi que minhas mãos já não sabiam separar as palavras
claras das cinzentas. Ela havia misturado todas as tintas. Eu já não tinha dedos para escrever; pertencia agora à margem dos seus cadernos, à volúpia dos
seus abraços, ao ponto final que ela impunha com os sussurros soprados na minha
nuca. Eu me tornara o seu poema mais claro, aquele que ela declamava em
silêncio enquanto me devorava com a precisão de quem corrige um erro.


