Por
causa das chuvas torrenciais em Salvador, decidi descobrir se também chovia no
Condomínio das Letras, do outro lado da vida. Então, peguei meu telefone móvel e fiz uma chamada de
vídeo para Machado de Assis. Sorumbático, ele estava de braços cruzados na
varanda e exclamou com olhar distante:
—
Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis, mas o meu machado
sumiu! Não o encontro por quaisquer outros contos de réis![1]
Do
jardim vizinho, Guimarães Rosa surgiu de trás de um arbusto, ajeitando a
gravata-borboleta e, com os olhos cravados no infinito, destilou sua sabedoria:
—
Viver é muito perigoso, seu Assis. Veja: o senhor procure a ferramenta, mas
cuidado para não cortar as minhas rosas. O diabo é que gosta de gume afiado.[2]
Antes
que Machado respondesse, um barulho ecoou pela calçada. Era Manuel Bandeira,
batendo de porta em porta com o entusiasmo de um mascate. Ele segurava um
tecido verde e amarelo:
—
Olha a bandeira! Quem vai querer a bandeira do Brasil? A Copa está chegando e
eu só quero a minha Pasárgada futebolística! Lá sou amigo do rei, mas aqui
preciso vender pano![3]
Machado,
já sem paciência, apontou para a casa ao lado, de onde saía fumaça de charuto:
—
Vá bater lá no Jorge Amado, Manuel. Ninguém gosta mais de uma festa e do povo
do que ele. Aquele ali vive cercado de capitães da areia. Capaz de comprar seu
estoque inteiro.
Bonachão, Jorge[4]
abriu a janela com um sorriso largo, segurando um prato de acarajé:
—
Alguém falou meu nome? Entrem! O machado do Assis está aqui em casa. Usei para
abrir um coco!
E assim, entre uma xícara de café, um gole de cachaça e um acarajé, os quatro decidiram esquecer a confusão e fundar uma academia de bem-aventurança. Foram felizes, bem-vestidos e imortais para sempre.
José Carlos Sant Anna,
10 de junho de 2026
*Como um nordestino-raiz, sou bom de rede, assim, além de ter aceitado em tom de pilhéria o desafio de Edu, pesquei a imagem do seu blog e trago alguns detalhes sobre as obras citadas.
[1]
Trata-se
do drama de Brás Cubas. Machado
de Assis começa com a famosa reflexão: "Marcela amou-me durante
quinze meses e onze contos de réis", frase inicial do célebre capítulo
XV de Memórias Póstumas de Brás Cubas. O machado que ele procura é
a sua própria pena afiada de cronista!
[2] O tom cauteloso de Guimarães Rosa traz uma das máximas mais icônicas de Grande Sertão: Veredas: "Viver é muito perigoso... o diabo é que gosta de gume afiado". É o que pode ser chamado de “sabedoria do sertão”. A gravata-borboleta era a marca registrada do autor.
[3] Manuel
Bandeira traz a leveza de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada, o
"tecido verde e amarelo" de sua poesia cívica, misturado à realidade
bem brasileira do futebol e da crônica diária. É o mascate da poesia.
[4] Jorge Amado
não poderia estar em outro lugar que não na Bahia, fumando seu charuto, cercado
pelo povo e pelos Capitães da Areia (1937), oferecendo um autêntico
acarajé aos colegas imortais. É a hospitalidade baiana cantada em prosa e
verso.

