Amanhã
anunciarei aos quatro ventos que não carregarei o peso da educação sentimental
nos meus ombros — e será muito bem-feito este anúncio, embora esta afirmação
não traga a convicção que me sugerem as imagens, filmes surreais nas lacunas
das minhas memórias. Mas é o que digo sem preâmbulos; é o que importa por
enquanto. Ou é o que importa agora, ou é o que importa hoje, e não amanhã.
E
por que escrevi mornamente amanhã, como se fosse uma voluta por dentro? Por
quê? Não sei. E ninguém sabe de incêndio outonal em campo minado. Bastam as
circunvoluções para que eu esqueça as dissonâncias da cabeça pensante. É o que
importa no momento. Embora a viagem esteja anunciada para daqui a duas semanas,
o que importa é saber o que foi feito das minhas malas. É nelas que as minhas
letras morrem quando não se equivalem a um samba que me leva a dançar no
sambódromo da vida. Sem as malas não há diário, digo, prestes a ligar para a
agência de turismo que veste personagens nas promoções de viagem.
E
me pergunto, mais confuso do que embasbacado: que jornada? Não há resposta.
Minha agenda se perdeu em algum canto da casa e não sei se há nela algum
registro dessa viagem. Seria possível achar alguma coisa na bagunça a que a
casa parece ter se acostumado, para desgosto dos seus hóspedes, pais e filhos?
Hoje,
na esperança de pôr ordem no caos, fiz faxina na cozinha. Passei pano molhado
no chão, lavei os ladrilhos, deixei a pia brilhando como se fosse uma panela
que tivesse levado uma demão de Bombril em suas paredes, lavei o balde de lixo
e estendi no varal a roupa que dormia há três dias na máquina de lavar. Tudo
isso porque, ao soar o alarme do telefone anunciando a hora de ingerir o
Selozok, remédio de uso contínuo, percebi que a bagunça da casa não me deixaria
encontrá-lo. E, de seu quarto, minha filha disse aos gritos que o viu, em caixa
lacrada, dentro do micro-ondas, o que me fez lembrar da amiga Dilma, cujos
filhos procediam da mesma maneira quando ela perguntava pelos seus óculos,
sempre perdidos.
A
menina jura que ouviu o remédio perguntar, a plenos pulmões, que diabos ele
estava fazendo ali dentro quando ela resolveu assar os pãezinhos de queijo
feitos por Margarida, a cozinheira, que não esconde a fome dos seus lábios.
Pois digo-lhe, já em combustão: Margarida molda o mundo com as mãos sujas de
farinha e nos assiste com um silêncio cúmplice, de quem conhece a geografia da
nossa bagunça melhor do que nós mesmos.
Enquanto
busco o Selozok e questiono os rumos do tempo, ela abre o forno com um pano de
prato encardido, alheia às minhas crises existenciais, mas atenta ao ponto
exato do queijo que derrete. Sua fome não é apenas de comida; é uma fome de
vida, de chão firme, que bate de frente com a minha mania de flutuar entre malas
perdidas e memórias inventadas. Ela é o único relógio pontual desta casa.
Sempre achei que nessa viagem seria possível reverter as fronteiras do tempo, embora eu não saiba por onde começar o périplo com carros, estradas, viadutos, trevos, sonhos, fantasias e memórias. Mas saberei usar compressas de água gelada para acordar as palavras quando elas chegarem febris.

