sábado, 23 de maio de 2026

Arroz doce

 



    Ela ainda sentia o lume do arroz-doce. Maricota ficou horas deitada com seu cheiro de hortelã espalhado, o olhar perdido ora no lustre do quarto, ora no vão da janela, sem querer que o domingo acabasse. Sentia-se feliz por ter ficado, por alguns momentos, com a palavra sufocada, até que ambos — o marido e o domingo — pregassem ao seu lado. Isso aconteceu logo após ela ter dito seguidas vezes ao seu ouvido: “toma-te”, naquele encontro inopinado no quarto do casal, o que fazia luas que não acontecia!

    “Toma-te”. Por quase um nada, o domingo se esvaíra entre os monossílabos trocados, as saladas do almoço e até mesmo um cafezinho, sem que o verbo fizesse ponto na esquina. Foi o que aconteceu quando o pássaro trêmulo da língua voou na casa de dona Maricota (por favor, não me digam: “que nome estranho esse!”), depois que ela trancou a porta e conferiu a tranca três vezes, como sempre fazia em suas fúteis manias do dia a dia. Em seguida, puxou a cadeira e se sentou, pernas estiradas, para sorver o café tirado na hora.

    Com as vastidões das lembranças bem vivas na cabeça, acabou, sem querer, entornando-o na sua camisola de dormir. Ficou muito zangada porque o marido, que não lhe despregava os olhos, tirou uma foto do instante e, em tom de galhofa, ameaçou colocar nas vitrines das redes aquele registro pessoal, íntimo. Ela tinha puxado a camisola acima das coxas para não se queimar.

    Ela amuou, fez beicinho com a camisola manchada e com as brincadeiras do marido, mesmo sabendo que ele jamais divulgaria sua foto pelas redes sociais; ele a conhecia bem e sabia que ela não ficaria satisfeita. Ele carregaria água no cesto para não aborrecê-la. "Se preciso fosse, meu amor, a chama no meu peito ainda queima, nada foi em vão..." — alô, alô, Gonzaguinha, cantando aí no céu? Me perdoe, Waltinho Queiroz, pelo uso do seu modelo!

    Esse contratempo era o pretexto para suas dissimulações, sem que ela, assustada, de repente suspeitasse. Assim, para deixá-la mais arfante, de boca aberta — pois fazia parte do jogo —, ele se ajoelhou e beijou os dedos dos seus pés até que ficassem molhados de saliva. Ela dizia não gostar dessas coisas; para ela, era pirraça, como ele fazia todas as manhãs.

    Quando ele abria os olhos, ela já estava acordada fazia um bom tempo. Então, ele se virava, encostava-se e dizia: “Essa poupança me faz dormir de novo. Chegue para cá; antes, vou dar bombadas, de leve, elas vão lhe fazer bem”. E fazia movimentos circulares, esfregando meio lá, meio cá — se me entendem —, aquela coisa entre as pernas. Fazia isso ora lenta, ora freneticamente, e perguntava sempre sorrindo: "Me diga, você prefere assim?". Interrompia os movimentos esperando sua reação e olhava para ela, sorrindo. E ela sorria também. Ele recomeçava com um vaivém igualmente frenético e perguntava: “Ou assim?”, dando-lhe novas bombadas. Tentava beijá-la com a boca suja, mas ela sorria sem graça, afastando-o e dizendo-lhe, enquanto apontava para o banheiro: “Vai lá, escove os dentes e volte, que eu deixo, seu porquinho”.

    Assim começava, só de pirraça, a sessão matinal do "lambe-lambe", como ela a chamava. Pois, como eu dizia, com muita força de vontade ela arrancou os pés das mãos dele. Inutilmente, porque a salivação já tinha alcançado outro patamar. Não era pirraça, ela já admitia. Subia uma comichão; ela disse depois que não estava morta e, por quase nada, ligeira, desprendeu os cabelos. Como estava abstêmia — pois fazia tempo que não sabia o que era aquilo para valer —, entregou-se. Sentia que era alguém com a obrigação de renascer, de respirar de novo a frescura do prazer, sentir a carne e as veias que latejavam. Sentia a pólvora queimando suas entranhas. Enquanto um pé da sandália ficava no corredor da casa, sentia um tremor nas mãos, desembaraçando-se das vestes como se fosse a protagonista de um filme de amor com final feliz.

    Depois do lufa-lufa, arfando, ele caiu para o lado, prostrado — sinal de que a coisa tinha sido boa — e dormiu rapidamente. Ainda degustando aquele gozo dominical, ela parecia ter esquecido o "nunca aos domingos". Afinal, dessa vez, a chapa esquentou na hora da Ave-Maria! 

José Carlos Sant Anna, 
reeditado

 


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Metamorfose

 

            Foto: arquivo pessoal

Chove.

São gotas inescapáveis na janela 

que se dissolvem em espelho de vidro 

onde o ontem e o agora são inescapáveis também.

 

E o horizonte se dobra sobre a calçada,

e as janelas vizinhas se tornam olhos lacrimejantes, 

e a rua não é mais caminho, é apenas fluxo,

e o asfalto se rende à vocação de rio

 

enquanto eu mantenho meus rascunhos 

longe do hálito de vidro para que 

não se tornem um indesejável borrão

ou não virem espuma 

nas gotas em que a cidade se dilui.

 

Já não sei mais onde termina 

o vidro e começa o eu.

 

                José Carlos Sant Anna,

                15 de maio de 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Filosofia felina

 

Imagem Pixabay

Depois de ouvir e relaxar com Wagner, conhecido por sua intensidade, por sua paixão e por sua grandiosidade, Imaculada, minha estimada gata, em um estado de espírito elevado, quase romântico, despojado, decidiu deixar-se amar ao defrontar-se com um pássaro cantor pousado na janela do alpendre, e o fez porque foi tocada pela cena que parecia dizer-lhe mais sobre o que flui na alma, pois para sustentar o peso do próprio voo, elaborou a minha elegante gata, é preciso o pouso para que o peito, enfim, se acalme. 

José Carlos Sant Anna,

8/maio/2026


terça-feira, 28 de abril de 2026

O céu pela vidraça

 


Querida,

    Você sabe o que acontece com as cores do arco-íris quando elas se desmancham nos céus? Não? Então pergunte aos beirais para que eles contem sobre o quieto pranto saudoso que elas exalam quando se despem nos céus. 

    Os beirais não guardam segredos e podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não apague a nitidez dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do corvo que rasga a escuridão à tua frente.

    Sim, querida, ainda vou à igreja da Penha, mas esqueça o que se esvai por entre os dedos e escorre pelas mãos – além das palavras às quais renunciamos, o que ficou trancado por lá, e a fome em que nos afundamos. Guardemos os alentos das primeiras horas deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me, ainda que de passagem, pois, por mais que tente, os teus olhos não saberão recobrá-los. Tampouco a tua memória.

    E saibas também, sequioso, que as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom timoneiro arrastando o peso do mundo; não, não encalho no raso, e os patos me consolam quando os observo de algum telhado aberto nas asas do tempo. E guarda teu riso de menina no clarim da alvorada.

    Ah, não me pergunte sobre a doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta, por favor, ao sorrir para mim porque, instintiva, a presunção da minha inocência reagirá a esse filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de tudo, tudo, por favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E, sem alarde, não se oponha. É só uma lufada de vento o que lhe digo. Sou o dono circunstancial do meu silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro.

    Esqueça tudo do ano que passou, o retrovisor do Uber, o vaivém das cortinas, a música de Wagner, a estação da chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das praças em que repassávamos os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o horizonte turvo, as espumas de um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena revirar os perdidos sonhos.

    E, por favor, não desplugue a tomada deste solo exato, pois ainda haverá tempo para ler a portuguesinha que você recomendou e esmiuçar a sua poesia. Será depois do caldo verde, antes que a luz da lua transpasse seus versos.

    Por favor, eu sei. É sobre a vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça. As palavras não têm descanso em cada poema, como você o disse. São versos que enlevam, alucinam, provocam e nos tornam seu escravo, tamanho o domínio da língua e o vigor da sua poesia, quase o repito. Por favor, não desconsidere esta observação: eu não quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me peça que publique os meus alfarrábios também.

    No estágio atual, ou seja, no meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos seus grandes lábios a dez mil pés de altura, no toalete do avião, sob o calor dos teus suspiros, a qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor, não me pergunte outra vez sobre o livro, pois, só por desfaçatez, vou confessar que sou escravo do desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando meus dedos no teclado remontam o tempo do vivido.

 Salvador, 28 de abril de 2026.
(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Dá-me a beber I

 


poderia ser chamado loucura

quando escrevo algo

na vida provisória dos disfarces

o que é fato é que eu não acharia 

surpreendente

coser palavras ao teu corpo como quem,

arisco, o habita, coroado de renúncias,

enquanto arranjos indecisos

chovendo cântaros de desejos

desgarram-se das minhas mãos

sob um vento leve que modela seu rosto.


                    José Carlos Sant Anna,

                    Reeditado

 


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Delírio


 Imagem Pixabay

Nas curvas do rio bandeiras tremulam 

nas dunas do tempo 

sem que se esbanje o verbo 

ou se perceba as discrepâncias entre as vozes 

ou se apreenda a febre das palavras. 

 

Mas esse é o caminho à mercê

do que quer que seja 

por mais do que um instante 

ou seja lá o que for 

para se começar uma história, 


porém eu ainda não descobri se o prazer da escrita 

é capaz de produzir linhas paralelas

nesse relevo antes que o delírio 

como gotas de orvalho umedeça as páginas em branco.


                    José Carlos Sant Anna,

                     27 de março de 2026


domingo, 5 de abril de 2026

Apetece-me

 

  

Sejamos graves em gestos que não devaneiem; ou sejamos vastos ad libitum como se não houvesse mais nada além da alegria do olhar que entardece.

Mas sempre há uma novidade.

O gafanhoto parecia muito feliz. Ele não sabia que eu estava logo ali, na poltrona da sala, a observar pela vidraça o que acontecia do lado de fora, quando, por instinto, se afastou da nuvem que sobrevoava o prédio e pousou na pequena horta da minha jardineira.

E ficou imóvel. Parecia encoberto pelo véu da sua incerteza. 

Ele buscava reconhecer o admirável mundo novo à sua frente. Ao que parece, ele não sente falta dos companheiros, os que pairavam acima do alcance do meu olhar.

E apetece-me vê-lo agora se movendo lentamente (por enquanto me apetece) por entre minhas hortaliças. Sem pudor.

Vagarosamente, ele fareja com suas antenas o cheiro e sente o sabor de cada folha. E a sonoridade da palavra apetece me apetece, parece vir do alto, lá das nuvens. Deixo-a no céu da boca por alguns instantes. E depois digo em voz alta "apetece-me", enchendo o ar com suas vogais e consoantes. 

E deixo-a fagueira pelos vãos do apartamento, pois é uma palavra que não quebra espelhos, além disso, ela levita com a imensidão da lua quando há um rio noturno e os teus joelhos se dobram à minha pulsão. 

 

(José Carlos Sant Anna),
agosto, 2021.
Dos meus alfarrábios.

Arroz doce

       Ela ainda sentia o lume do arroz-doce. Maricota ficou horas deitada com seu cheiro de hortelã espalhado, o olhar perdido ora no lustr...