quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Clamor

 

Imagem Pixabay

Descabido, penso diferente

do que sonho, embora o inefável

me acene tão leve, por acaso

mais leve que claro, sem ferir

 

o corpo que contraio. Assim, não me

aferro ao amor da existência que me

fere a pele, aguça minha sede, aflige

meu sono e me abandona às margens

 

dessa vida em que me diluo sem saber

se o que em mim estava me subjugava

ao nada ou é o excesso que se move

 

como um rio, ou é uma febre que só

a si mesma se compara e distende-se

por dentro como um par de asas.


                    Dos meus alfarrábios

                    José Carlos Sant Anna

                     


         

domingo, 25 de janeiro de 2026

Tio Tonho

 

                                                                                                        
                                                                                               dedico a Dalton Trevisan*

Manhã cinzenta nos Alagados.

O menino tinha acabado de fazer os deveres da escola e trafegava entre a incerteza de um sim e a certeza de um não, se preparando para abastecer a casa com a água do chafariz em terra firme da incipiente área urbana, quando ouviu um burburinho do lado de fora, além das quatro paredes de restos de madeira e papelão do barraco. 

Nele, moravam os quatro irmãos: dois meninos, duas meninas, ele e a mãe. As meninas ainda pequenas. Aquele burburinho não era um recado de amor deixado pelos passarinhos. Imaginou. Logo, ele não pensou duas vezes. Mais que depressa, pegou a toalha da rodilha, a lata grande, de flandres, para tomar, pelas pontes de madeira, o rumo do chafariz e trazer a novidade para casa, além da água.

Num piscar de olhos, de boa cepa como era, ele estava pronto para cumprir outra das suas obrigações. A primeira era estudar; a segunda, ajudar nas tarefas da casa com os seus irmãos, embora lhe coubesse sempre um quinhão maior. Seus irmãos estudavam em escola de tempo integral com alimentação. Do café da manhã à sopa no final da tarde, antes de voltarem para casa. Era uma grande adjutório do governo para a família do menino, quando o ensino público se garantia e ajudava a sustentar famílias. Por isso, ele sempre ponderava com sua mãe que tinha mais coisas a fazer do que seus irmãos.

O menino gritou da porta da rua:

— Mãe, vou pegar a água no chafariz.

E não esperou a resposta de sua mãe. A máquina de costura rasgava o silêncio do barraco. 

Com o delay, ouviu, longe, a resposta da mãe: 

— Não fique na rua. Chafariz e casa!

Ele não chegou em ânsias ao chafariz, não chegou botando os bofes pela boca, porque estancou no meio do caminho ao ver um homem na superfície da água que, para sorte dele, a maré estava cheia. Esperto, intuiu que o burburinho vinha do jeito que ele se mexia entre as casas na água.  

Logo matutou como se fosse um capiau: "aquele homem poderia ter pulado na água por uma janela, o que ele não teria feito, se fosse maré baixa, uma vez que a água refluía completamente, deixando os mourões dos barracos cobertos de ostras e a lama visguenta à mostra sob uma ou outra poça. Por que estaria se escondendo?"

A manhã ficava mais cinzenta!

O homem não media esforços para escapar ileso do amor, que agora ele descobria que tinha os olhos grandes, porém míopes: Mergulhava. Emergia. Nadava. Mergulhava outra vez e saía mais longe da infausta casa. Quando emergia, olhava para trás para saber se estava sendo perseguido por cima das pontes. O menino mirou bem o homem e o reconheceu de pronto. O homem, vendo-o, sem dar bandeira, fez um sinal com o dedo na boca, pedindo-lhe silêncio e, com a outra, enquanto boiava, que ele se afastasse.

Pelos escombros do homem, o menino viu que seu olhar denunciava medo. Muito medo. Acuado, o menino se afastou como lhe foi pedido por gestos e atitudes, seguindo o seu caminho.

Ladi, como o chamavam, era o fugitivo. Homem fino para os padrões de moradia naqueles manguezais. Vinha do Rio de Janeiro e se exibia com as sobrinhas que moravam na mesma rua do menino. O menino sabia quem ele era. Conhecia as irmãs e as sobrinhas dele. O menino, esperto, já cobiçava uma das três sobrinhas do homem. Gostava de vê-las andando pelas pontes em suas saias plissadas rumo à escola, quando ele se babava ou se refugiava pelos cantos.

O homem que aquele homem achava que o perseguia por cima das pontes estava ocupado em surrar a mulher. E o menino, mesmo assustado, curiosidade se sobrepondo, correu sobre as pontes para pegar a água no chafariz em terra firme. 

Ele queria notícias frescas porque o homem que surrava a mulher era seu tio, soldado do fogo, como o chamavam. Um codinome. Ele se chamava Antônio. E a mulher, Rute. Tios. Mas não era um parentesco em primeiro grau. 

Os laços sanguíneos da sua mãe sempre foram mal explicados, confusos para a cabeça do menino. Tios e primos abundavam na família materna. Até que o menino acabou namorando uma delas, sem ultrapassar os limites da época. O menino tinha juízo. Não queria para si uma família desestruturada. E seguia o conselho da mãe:

—  Não arranje sarna para se coçar, menino — dizia-lhe sem disfarce e experiência. Afinal, para tomar conta de cinco filhos, ela contava tão somente com a sua máquina de costura.

No chafariz, sabiam o que tinha ocorrido na casa do tio dele. A notícia chegara ali depressa, não havia explicação para a notícia ter percorrido tão rapidamente a distância, ainda que pequena. No íntimo, o menino se vangloriava de quase ter testemunhado o incauto pular a janela do quarto e cair na água do mar para livrar-se de tio Tonho.

O bombeiro chegara na manhã cinzenta pronto para apagar o fogo da mulher. Ele desconfiava que ela pulava a cerca na sua ausência com o tal do Ladi, como ele dissera depois no seio da família para justificar a surra em tia Rute. O tio do menino queria era tê-los apanhado na cama. 

Será mesmo que ele queria?

Ladi se escafedera ao perceber o barulho na porta de entrada. E voltara ao Rio de Janeiro em voo noturno, depois de passar o dia inteiro escondendo-se, primeiro nas águas encardidas da maré, por debaixo das casas; depois, sabe-se lá onde, até a hora do voo de volta ao Rio de Janeiro.

O menino nunca mais teve notícias de tio Tonho e de tia Rute. Mas dizem as más línguas que eles nunca se separaram, porém conheceram quase todos os bairros da cidade.

 

(José Carlos Sant Anna),

28 de dezembro de 2025

Do caderno de rascunhos de Tão Preto


*Dalton Trevisan nasceu em 14 de junho de 1925 em Curitiba, Paraná, mesma cidade onde morreu em 9 de dezembro de 2024, aos 99 anos. Formado em Direito pela UFPR, chegou a exercer a advocacia durante alguns anos, tendo atuado também como crítico de cinema e repórter policial. Em 1946, aos 21 anos, criou com os amigos Erasmo Pilotto e Poty Lazarotto a revista literária Joaquim, da qual era editor e onde publicou seus primeiros contos. A revista, que tinha entre seus colaboradores Mário de Andrade e divulgou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade, terminou em 1948, depois de 21 edições, mas Trevisan continuou publicando em brochuras e folhetins. Seu primeiro livro, Novelas nada exemplares (1955), o tornou nacionalmente conhecido – a reunião de contos ganhou o prestigioso prêmio Jabuti, primeiro de quatro ao longo da carreira consagrada ainda com os prêmios Ministério da Cultura de Literatura (1996), Portugal Telecom de Literatura Brasileira, atual Oceanos (2003, dividido com Bernardo Carvalho), Camões (2012) e Machado de Assis, da ABL (2012). Entre seus livros, destacam-se ainda Cemitério de elefantes (1964), O vampiro de Curitiba (1965), do qual herdou a alcunha, Contos eróticos (1984), A guerra conjugal (1975), Macho não ganha flor (2006) e o único romance, A polaquinha (2013). Seu acervo se encontra no IMS - Instituto Moreira Salles. In: https://ims.com.br/titular-colecao/dalton-trevisan/

sábado, 17 de janeiro de 2026

Dos bilhetes umectantes II

 


Um pedaço de vida. Talvez uma parte, a que inventamos para não ver o mundo passar; esta, eu posso soprá-la no seu ouvido como um vento no mar. 

Pois. Ainda admirava uma estampa de Viña del Mar, na véspera do Ano Novo, quando a galega me escreveu um texto lúcido, simétrico, curto, que me fez esquecer trapézios, redes e lonas da minha juventude. Sem enigmas. 

O texto, uma voz que tange, me fez pensar, quase ridículo, em fotogramas. Estava tão enxuto, penetrando a folha de papel, que me levou ao velho Graciliano, o ex-prefeito, entre outras coisas, de Palmeira dos Índios, aquele que deu uma certa dor de cabeça na política brasileira. Aos milicos também. Revejo a fonte do que teria sido seu erro: ele queria que pobre e preto tivessem acesso à escola pública. Acabou preso.  

Um soberbo escritor disse Antonio Cândido. 

    O texto, dizia eu, trazia coisas bonitas para esquecer os dias longos no deserto; é um curta em preto e branco, pisca um olho para minha sombra e faz agarrar-me a uma rocha para elucubrar sonhos míticos.

Ao olhar cada fotograma contra a luz, penso na história que o texto revela entre dois oceanos e nos olhos que os desnudaram.

Mas não há fotogramas; é mudez quando tudo são palavras; mescla de interlúdios e sonatas. E faço de conta de que tudo beira a orla do mar. Ou que o texto sugere. E penso em Caetano Veloso, o de Chuva, suor e cerveja, no sol que nele brilha e no que a galega dos Andes chilenos acentua: “Obrigado. Obrigado, por ser e estar. Não me soltes. Não me percas”. 

Não penso em camuflagem depois que esta luz entra pela janela da sala e sorrio com este canto de aurora no rio deste novo Ano Novo. 

 

(José Carlos Sant Anna,

Reeditado)

sábado, 3 de janeiro de 2026

Do teu cântaro

 


Em meio
a um tormentoso frio
e em engasgada ânsia, 
ela diz
"és de mim que nasces",
imberbe,
vens mais perto, vens,
e beija-me, e beija-me,
e suplica-me no teu silêncio
e no sorriso que leva o brilho
aos teus olhos. 
 
E toca-me,
e beija-me,
e toma a minha caneta
em suas mãos,
massageando-a delicadamente
à beira de extravasar
o precioso líquido
enquanto as minhas mãos 
se expande pelo teu corpo,
onde me perco, onde me acho,
desenhando sílabas
que se enroscam vorazes,
impelindo-me
para dentro da tua mancha branca
quando sangram
às margens do teu cântaro
outras sílabas e palavras e suspiros.
E transpiro. E saboreio o canto, o ritmo,
a musicalidade no teu corpo,
do teu corpo, pelo meu corpo.
 
Trêfegas,
volto a desenhá-las
na página em fogo mais brando
e antevejo o longo fio 
costurando 
a face ainda oculta do poema 
que revela seus dentes 
ao se fazer e se refazer em minha medula 
e no desejo que me impele à salivação 
no vagar e nos afagos.
 
(José Carlos Sant Anna)
dezembro, 2025.
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Versos de Natal

 



Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos, 1940


Um Natal de muita paz e muitas alegrias para todos os meus amigos. 

Recebam meus abraços, fraternos e festivos.

José Carlos Sant Anna


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Um curta no Amanhã


 Imagem Pixabay

Outra vez.
Escancarei os olhos.
Na ponta dos sapatos uma mancha.
Se eu pudesse vê-la sem os óculos,
não saberia que era ketchup.
Estou sem teto. Já lhe disse?
Teresa não me deixou entrar em casa.
É incômoda a notícia de não 
poder entrar em casa. Saberei contorná-la?
A mala é pequena, mas tem muitas
viagens nas costas.
Nela, não cabem as estranhezas em riste
a aumentar a dor na crise.
Incomodado eu ficaria
se não coubessem meus livros,
imponderáveis e leves. São poucos,
o que não me espanta, reflito.
Por saber-me somente lhes digo 
Não é primeira vez que fico sem teto.
E não tenho medo, mas o bolso
está sem um puto para o olho da rua.
E se tenho a alma em chamas
o que faço para salvar 
a poesia desse amor?

José Carlos Sant Anna,
11 de novembro de 2025

domingo, 7 de dezembro de 2025

O rumor das pantufas

 


É claro. Zeloso, muito zeloso, abro o guarda-chuva para a noite. E me contemplo, zeloso. Absurdamente zeloso. É claro, onde já se viu, estapafúrdio e noturno, numa cidade tão quente como esta em que vivemos abrir-se um guarda-chuva à noite? Qualquer cidadão que traga a cabeça no lugar e os pés no chão achará absurdo esse gesto cômico ao se deparar com a cabeça coberta por uma guarda-chuva à noite. Por cima da cabeça, é claro, não poderia ser de outra maneira seu uso. O gesto é maquinal uma vez que a ponte, antes, era um elo, uma ligação, não seria exagero dizer íntimo, do curvar-se paulatino entre os protagonistas desta história: eu e ela. Não há dúvida: agora Inês é morta e descansa em paz ao lado de Pedro, não é mesmo? Ainda que a ponte esteja interditada, um cappuccino viria a calhar. Parcialmente interditada, mas não é tudo, você há de convir, leitor. Ela, a protagonista, e não Inês, proibiu quaisquer passos em sua direção feitos por mim. Suspeito é o que sou, e não um delituoso. É só uma suspeita. Nada mais. Ponto final. E se eu lhe mostrasse minhas pantufas, são as mesmas que revelam o tamanho da minha preguiça, pois me recuso a pensar em outra coisa, salvo a interdição. Creia em mim. Creia. Como me recuso a escrever qualquer coisa para salvar as aparências, ouso dizer-lhe: o que ela ama, são as minhas pantufas. E não me incomodo com o fato de não compreender tudo que ouço sobre a interdição, o importante não são as rosas que eu deixava na sua varanda todos os dias, são as pantufas, são elas que importam. Ela me queria todos os dias e às pantufas. Sem as pantufas, ela não me vê completo, arrota sem cerimônia em gestos e palavras. Pense em alguém que, sem culpas e remorsos, se lambuzasse de pantufas. É ela. Quantas mulheres tão próximas viram minhas pantufas e se entregaram às fantasias? Quantas vezes pediram que as deixasse em suas mãos. Falavam da sua maciez, tomavam-nas nas mãos como um brinquedo. Mas ela, a que se acreditava dona, não queria que ninguém as visse, que as tocasse. Não queria vê-las usurpadas. Há algum mal vê-las estiradas ao sol? Me equilibro nas histórias das pantufas, recubro-me de razão quando me descubro um skatista na hora de escrever. Queria mais? 

 

José Carlos Sant Anna, 

12 de outubro de 2025.








Clamor

  Imagem Pixabay Descabido, penso diferente do que sonho, embora o inefável me acene tão leve, por acaso mais leve que claro, sem ferir   o ...