I.
A ESPERA
A MADEIRA DA MESA RANGE. É
o calor que a sufoca. Na taça, o vinho é uma lâmina escura, uma leve
transparência no cristal: um espelho pesado que trinca quando os lábios o
tocam. O verão entra pelas bordas da sala sem pedir licença, trazendo o cheiro
do mato esturricado e o silêncio esticado das horas que não passam. Há um
compasso de espera no ar, um ensaio de tempestade que se acumula na dobra dos
lençóis, na poeira suspensa que flutua entre as estantes. Olho para os livros
alinhados como sentinelas mudas; guardam segredos deste século e de outros também, mas nenhum
deles sabe decifrar o ritmo do sangue que já começa a acelerar debaixo da minha
pele. O primeiro gole é áspero, desce queimando o fundo da garganta, enquanto
os olhos buscam a linha do horizonte lá fora. A ilha está pronta. O gatilho é o
som dos teus passos.
II.
O INSTANTE
SOBRE A MESA, UMA TAÇA de
vinho. Antes, o vai e vem das folhas; depois, a suave harmonia dos corpos
suados. Antes, a respiração ofegante; depois, a melancolia. Antes, a fatalidade
exata; depois, a agonia do eterno retorno. Como se todas as retas fossem
paralelas, como se a chuva escorresse pelo teu corpo em pleno verão, o meu
corpo lateja na ilha do desejo, recolhendo os ovos das perdizes. E ainda
crepita a pulsação das palavras, das mãos, dos pés, dos músculos, da língua. Há
sol nas minhas entranhas e um líquido vaporoso nas minhas veias. Através das
folhas da alcachofra, a tarde não se dissipa; através das lombadas dos livros,
a história de um corpo calcinado pelo vulcão. Entre o vazio, a palavra e as
perdizes, aguço a vista para que nada se perca na minha ilha.
III.
O RASTRO
A TARDE FINALMENTE CEDE; na
boca, o gosto amargo e terroso do final do vinho. O quarto agora é uma ruína
morna. Sobre a mesa, a taça vazia guarda apenas uma mancha carmesim no fundo do
cristal, como a lava que esfriou após o colapso. O suor que antes colava as
peles evapora devagar na aragem do crepúsculo, deixando um rastro salgado, uma
cartografia invisível gravada nos lençóis desalinhados. Lá fora, o vai e vem
das folhas diminui; as perdizes recolhem-se ao ninho protetor debaixo da terra
seca. Olho para as lombadas dos livros na penumbra que avança e percebo que
escrevemos mais uma página, sem tinta, gravada a fogo na memória da carne. A
ilha silencia, mas a pulsação continua lá, subterrânea, esperando a próxima
maré.





