quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Condomínio das Letras

Inspirado no Literários* do blog As crônicas de Edu
 

Por causa das chuvas torrenciais em Salvador, decidi descobrir se também chovia no Condomínio das Letras, do outro lado da vida. Então, peguei meu telefone móvel e fiz uma chamada de vídeo para Machado de Assis. Sorumbático, ele estava de braços cruzados na varanda e exclamou com olhar distante:

— Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis, mas o meu machado sumiu! Não o encontro por quaisquer outros contos de réis![1]

Do jardim vizinho, Guimarães Rosa surgiu de trás de um arbusto, ajeitando a gravata-borboleta e, com os olhos cravados no infinito, destilou sua sabedoria:

— Viver é muito perigoso, seu Assis. Veja: o senhor procure a ferramenta, mas cuidado para não cortar as minhas rosas. O diabo é que gosta de gume afiado.[2]

Antes que Machado respondesse, um barulho ecoou pela calçada. Era Manuel Bandeira, batendo de porta em porta com o entusiasmo de um mascate. Ele segurava um tecido verde e amarelo:

— Olha a bandeira! Quem vai querer a bandeira do Brasil? A Copa está chegando e eu só quero a minha Pasárgada futebolística! Lá sou amigo do rei, mas aqui preciso vender pano![3]

Machado, já sem paciência, apontou para a casa ao lado, de onde saía fumaça de charuto:

— Vá bater lá no Jorge Amado, Manuel. Ninguém gosta mais de uma festa e do povo do que ele. Aquele ali vive cercado de capitães da areia. Capaz de comprar seu estoque inteiro.

Bonachão, Jorge[4] abriu a janela com um sorriso largo, segurando um prato de acarajé:

— Alguém falou meu nome? Entrem! O machado do Assis está aqui em casa. Usei para abrir um coco!

E assim, entre uma xícara de café, um gole de cachaça e um acarajé, os quatro decidiram esquecer a confusão e fundar uma academia de bem-aventurança. Foram felizes, bem-vestidos e imortais para sempre. 

José Carlos Sant Anna,

10 de junho de 2026


 

 

*Como um nordestino-raiz, sou bom de rede, assim, além de ter aceitado em tom de pilhéria o desafio de Edu, pesquei a imagem do seu blog e trago alguns detalhes sobre as obras citadas.



[1] Trata-se do drama de Brás Cubas. Machado de Assis começa com a famosa reflexão: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis", frase inicial do célebre capítulo XV de Memórias Póstumas de Brás Cubas. O machado que ele procura é a sua própria pena afiada de cronista!

[2] O tom cauteloso de Guimarães Rosa traz uma das máximas mais icônicas de Grande Sertão: Veredas: "Viver é muito perigoso... o diabo é que gosta de gume afiado". É o que pode ser chamado de “sabedoria do sertão”. A gravata-borboleta era a marca registrada do autor.

[3] Manuel Bandeira traz a leveza de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada, o "tecido verde e amarelo" de sua poesia cívica, misturado à realidade bem brasileira do futebol e da crônica diária. É o mascate da poesia.

[4] Jorge Amado não poderia estar em outro lugar que não na Bahia, fumando seu charuto, cercado pelo povo e pelos Capitães da Areia (1937), oferecendo um autêntico acarajé aos colegas imortais. É a hospitalidade baiana cantada em prosa e verso.




sábado, 23 de maio de 2026

Arroz doce

 



    Ela ainda sentia o lume do arroz-doce. Maricota ficou horas deitada com seu cheiro de hortelã espalhado, o olhar perdido ora no lustre do quarto, ora no vão da janela, sem querer que o domingo acabasse. Sentia-se feliz por ter ficado, por alguns momentos, com a palavra sufocada, até que ambos — o marido e o domingo — pregassem ao seu lado. Isso aconteceu logo após ela ter dito seguidas vezes ao seu ouvido: “toma-te”, naquele encontro inopinado no quarto do casal, o que fazia luas que não acontecia!

    “Toma-te”. Por quase um nada, o domingo se esvaíra entre os monossílabos trocados, as saladas do almoço e até mesmo um cafezinho, sem que o verbo fizesse ponto na esquina. Foi o que aconteceu quando o pássaro trêmulo da língua voou na casa de dona Maricota (por favor, não me digam: “que nome estranho esse!”), depois que ela trancou a porta e conferiu a tranca três vezes, como sempre fazia em suas fúteis manias do dia a dia. Em seguida, puxou a cadeira e se sentou, pernas estiradas, para sorver o café tirado na hora.

    Com as vastidões das lembranças bem vivas na cabeça, acabou, sem querer, entornando-o na sua camisola de dormir. Ficou muito zangada porque o marido, que não lhe despregava os olhos, tirou uma foto do instante e, em tom de galhofa, ameaçou colocar nas vitrines das redes aquele registro pessoal, íntimo. Ela tinha puxado a camisola acima das coxas para não se queimar.

    Ela amuou, fez beicinho com a camisola manchada e com as brincadeiras do marido, mesmo sabendo que ele jamais divulgaria sua foto pelas redes sociais; ele a conhecia bem e sabia que ela não ficaria satisfeita. Ele carregaria água no cesto para não aborrecê-la. "Se preciso fosse, meu amor, a chama no meu peito ainda queima, nada foi em vão..." — alô, alô, Gonzaguinha, cantando aí no céu? Me perdoe, Waltinho Queiroz, pelo uso do seu modelo!

    Esse contratempo era o pretexto para suas dissimulações, sem que ela, assustada, de repente suspeitasse. Assim, para deixá-la mais arfante, de boca aberta — pois fazia parte do jogo —, ele se ajoelhou e beijou os dedos dos seus pés até que ficassem molhados de saliva. Ela dizia não gostar dessas coisas; para ela, era pirraça, como ele fazia todas as manhãs.

    Quando ele abria os olhos, ela já estava acordada fazia um bom tempo. Então, ele se virava, encostava-se e dizia: “Essa poupança me faz dormir de novo. Chegue para cá; antes, vou dar bombadas, de leve, elas vão lhe fazer bem”. E fazia movimentos circulares, esfregando meio lá, meio cá — se me entendem —, aquela coisa entre as pernas. Fazia isso ora lenta, ora freneticamente, e perguntava sempre sorrindo: "Me diga, você prefere assim?". Interrompia os movimentos esperando sua reação e olhava para ela, sorrindo. E ela sorria também. Ele recomeçava com um vaivém igualmente frenético e perguntava: “Ou assim?”, dando-lhe novas bombadas. Tentava beijá-la com a boca suja, mas ela sorria sem graça, afastando-o e dizendo-lhe, enquanto apontava para o banheiro: “Vai lá, escove os dentes e volte, que eu deixo, seu porquinho”.

    Assim começava, só de pirraça, a sessão matinal do "lambe-lambe", como ela a chamava. Pois, como eu dizia, com muita força de vontade ela arrancou os pés das mãos dele. Inutilmente. A salivação já tinha alcançado outro patamar. Não era pirraça, ela já admitia. Subia uma comichão; ela disse depois que não estava morta e, por quase nada, ligeira, desprendeu os cabelos. Como estava abstêmia — pois fazia tempo que não sabia o que era aquilo para valer —, entregou-se. Sentia que era alguém com a obrigação de renascer, de respirar de novo a frescura do prazer, sentir a carne e as veias que latejavam. Sentia a pólvora queimando suas entranhas. Enquanto um pé da sandália ficava no corredor da casa, sentia um tremor nas mãos ao desembaraçar-se das vestes como se fosse a protagonista de um filme de amor com final feliz.

    Depois do lufa-lufa, arfando, ele caiu para o lado, prostrado — sinal de que a coisa tinha sido boa — e dormiu rapidamente. Ainda degustando aquele gozo dominical, ela parecia ter esquecido o "nunca aos domingos". Afinal, dessa vez, a chapa esquentou na hora da Ave-Maria! 

José Carlos Sant Anna,
reeditado

 


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Metamorfose

 

            Foto: arquivo pessoal

Chove.

São gotas inescapáveis na janela 

que se dissolvem em espelho de vidro 

onde o ontem e o agora são inescapáveis também.

 

E o horizonte se dobra sobre a calçada,

e as janelas vizinhas se tornam olhos lacrimejantes, 

e a rua não é mais caminho, é apenas fluxo,

e o asfalto se rende à vocação de rio

 

enquanto eu mantenho meus rascunhos 

longe do hálito de vidro para que 

não se tornem um indesejável borrão

ou não virem espuma 

nas gotas em que a cidade se dilui.

 

Já não sei mais onde termina 

o vidro e começa o eu.

 

                José Carlos Sant Anna,

                15 de maio de 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Filosofia felina

 

Imagem Pixabay

Depois de ouvir e relaxar com Wagner, conhecido por sua intensidade, por sua paixão e por sua grandiosidade, Imaculada, minha estimada gata, em um estado de espírito elevado, quase romântico, despojado, decidiu deixar-se amar ao defrontar-se com um pássaro cantor pousado na janela do alpendre, e o fez porque foi tocada pela cena que parecia dizer-lhe mais sobre o que flui na alma, pois para sustentar o peso do próprio voo, elaborou a minha elegante gata, é preciso o pouso para que o peito, enfim, se acalme. 

José Carlos Sant Anna,

8/maio/2026


terça-feira, 28 de abril de 2026

O céu pela vidraça

 


Querida,

    Você sabe o que acontece com as cores do arco-íris quando elas se desmancham nos céus? Não? Então pergunte aos beirais para que eles contem sobre o quieto pranto saudoso que elas exalam quando se despem nos céus. 

    Os beirais não guardam segredos e podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não apague a nitidez dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do corvo que rasga a escuridão à tua frente.

    Sim, querida, ainda vou à igreja da Penha, mas esqueça o que se esvai por entre os dedos e escorre pelas mãos – além das palavras às quais renunciamos, o que ficou trancado por lá, e a fome em que nos afundamos. Guardemos os alentos das primeiras horas deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me, ainda que de passagem, pois, por mais que tente, os teus olhos não saberão recobrá-los. Tampouco a tua memória.

    E saibas também, sequioso, que as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom timoneiro arrastando o peso do mundo; não, não encalho no raso, e os patos me consolam quando os observo de algum telhado aberto nas asas do tempo. E guarda teu riso de menina no clarim da alvorada.

    Ah, não me pergunte sobre a doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta, por favor, ao sorrir para mim porque, instintiva, a presunção da minha inocência reagirá a esse filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de tudo, tudo, por favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E, sem alarde, não se oponha. É só uma lufada de vento o que lhe digo. Sou o dono circunstancial do meu silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro.

    Esqueça tudo do ano que passou, o retrovisor do Uber, o vaivém das cortinas, a música de Wagner, a estação da chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das praças em que repassávamos os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o horizonte turvo, as espumas de um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena revirar os perdidos sonhos.

    E, por favor, não desplugue a tomada deste solo exato, pois ainda haverá tempo para ler a portuguesinha que você recomendou e esmiuçar a sua poesia. Será depois do caldo verde, antes que a luz da lua transpasse seus versos.

    Por favor, eu sei. É sobre a vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça. As palavras não têm descanso em cada poema, como você o disse. São versos que enlevam, alucinam, provocam e nos tornam seu escravo, tamanho o domínio da língua e o vigor da sua poesia, quase o repito. Por favor, não desconsidere esta observação: eu não quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me peça que publique os meus alfarrábios também.

    No estágio atual, ou seja, no meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos seus grandes lábios a dez mil pés de altura, no toalete do avião, sob o calor dos teus suspiros, a qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor, não me pergunte outra vez sobre o livro, pois, só por desfaçatez, vou confessar que sou escravo do desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando meus dedos no teclado remontam o tempo do vivido.

 Salvador, 28 de abril de 2026.
(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Dá-me a beber I

 


poderia ser chamado loucura

quando escrevo algo

na vida provisória dos disfarces

o que é fato é que eu não acharia 

surpreendente

coser palavras ao teu corpo como quem,

arisco, o habita, coroado de renúncias,

enquanto arranjos indecisos

chovendo cântaros de desejos

desgarram-se das minhas mãos

sob um vento leve que modela seu rosto.


                    José Carlos Sant Anna,

                    Reeditado

 


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Delírio


 Imagem Pixabay

Nas curvas do rio bandeiras tremulam 

nas dunas do tempo 

sem que se esbanje o verbo 

ou se perceba as discrepâncias entre as vozes 

ou se apreenda a febre das palavras. 

 

Mas esse é o caminho à mercê

do que quer que seja 

por mais do que um instante 

ou seja lá o que for 

para se começar uma história, 


porém eu ainda não descobri se o prazer da escrita 

é capaz de produzir linhas paralelas

nesse relevo antes que o delírio 

como gotas de orvalho umedeça as páginas em branco.


                    José Carlos Sant Anna,

                     27 de março de 2026


O Condomínio das Letras

Inspirado no Literários* do blog As crônicas de Edu   Por causa das chuvas torrenciais em Salvador, decidi descobrir se também chovia no Co...