Pus as palavras à parte: as cinzentas
de um lado e as claras do outro, escrevendo-as com os dedos enquanto a carne
pulsava. Tinta negra no seu dorso claro, o que fazia a alegria de Berta — a
professora que turvou meus olhos de lança-perfume e depois me tomou nos seus
braços, escavando o meu corpo como se fosse uma página aberta da minha escrita.
Um corpo a corpo fluido que me fazia
esquecer a queimação nos olhos e me entregava à outra — àquela gramática em que
ela me iniciava. O quarto girava na cadência dessa gramática viva. Eu estava
ali, sem entender o abismo das mãos em busca do corpo dela e dos dentes das
letras na sua boca de mil bocas, uma sede ardente me engolindo, despenhando-me
no abismo que ela mesma escrevera.
Ali embaixo, no escuro da semântica de
Berta, percebi que minhas mãos já não sabiam separar as palavras claras das
cinzentas. Ela havia misturado todas as tintas. Eu já não possuía dedos para
escrever; pertencia agora à margem dos seus cadernos, à volúpia dos seus
abraços, ao ponto final que ela impunha com os sussurros soprados na minha
nuca. Eu me tornara o seu poema mais claro, aquele que ela declamava em
silêncio enquanto me devorava com a precisão de quem corrige um erro.
Inspirado no Literários* do blog As crônicas de Edu
Por
causa das chuvas torrenciais em Salvador, decidi descobrir se também chovia no
Condomínio das Letras, do outro lado da vida. Então, peguei meu telefone móvel e fiz uma chamada de
vídeo para Machado de Assis. Sorumbático, ele estava de braços cruzados na
varanda e exclamou com olhar distante:
—
Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis, mas o meu machado
sumiu! Não o encontro por quaisquer outros contos de réis![1]
Do
jardim vizinho, Guimarães Rosa surgiu de trás de um arbusto, ajeitando a
gravata-borboleta e, com os olhos cravados no infinito, destilou sua sabedoria:
—
Viver é muito perigoso, seu Assis. Veja: o senhor procure a ferramenta, mas
cuidado para não cortar as minhas rosas. O diabo é que gosta de gume afiado.[2]
Antes
que Machado respondesse, um barulho ecoou pela calçada. Era Manuel Bandeira,
batendo de porta em porta com o entusiasmo de um mascate. Ele segurava um
tecido verde e amarelo:
—
Olha a bandeira! Quem vai querer a bandeira do Brasil? A Copa está chegando e
eu só quero a minha Pasárgada futebolística! Lá sou amigo do rei, mas aqui
preciso vender pano![3]
Machado,
já sem paciência, apontou para a casa ao lado, de onde saía fumaça de charuto:
—
Vá bater lá no Jorge Amado, Manuel. Ninguém gosta mais de uma festa e do povo
do que ele. Aquele ali vive cercado de capitães da areia. Capaz de comprar seu
estoque inteiro.
Bonachão, Jorge[4]
abriu a janela com um sorriso largo, segurando um prato de acarajé:
—
Alguém falou meu nome? Entrem! O machado do Assis está aqui em casa. Usei para
abrir um coco!
E
assim, entre uma xícara de café, um gole de cachaça e um acarajé, os quatro
decidiram esquecer a confusão e fundar uma academia de bem-aventurança. Foram
felizes, bem-vestidos e imortais para sempre.
José Carlos Sant Anna,
10 de junho de 2026
*Como um nordestino-raiz, sou bom de rede, assim, além de ter aceitado em tom de galhofa o desafio de Edu, pesquei a imagem do blog dele e trago alguns detalhes sobre as obras citadas.
[1]Trata-se
do drama de Brás Cubas.Machado
de Assis começa com a famosa reflexão: "Marcela amou-me durante
quinze meses e onze contos de réis", frase inicial do célebre capítulo
XV de Memórias Póstumas de Brás Cubas. O machado que ele procura é
a sua própria pena afiada de cronista!
[2]O
tom cauteloso de Guimarães Rosa traz uma das máximas mais icônicas de Grande
Sertão: Veredas: "Viver é muito perigoso... o diabo é que
gosta de gume afiado". É o que pode ser chamado de “sabedoria do
sertão”. A gravata-borboleta era a marca registrada do
autor.
[3] Manuel
Bandeira traz a leveza de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada, o
"tecido verde e amarelo" de sua poesia cívica, misturado à realidade
bem brasileira do futebol e da crônica diária. É o mascate da poesia.
[4] Jorge Amado
não poderia estar em outro lugar que não na Bahia, fumando seu charuto, cercado
pelo povo e pelos Capitães da Areia (1937), oferecendo um autêntico
acarajé aos colegas imortais. É a hospitalidade baiana cantada em prosa e
verso.
Ela ainda sentia o
lume do arroz-doce. Maricota ficou horas deitada com seu cheiro de hortelã
espalhado, o olhar perdido ora no lustre do quarto, ora no vão da janela, sem
querer que o domingo acabasse. Sentia-se feliz por ter ficado, por alguns
momentos, com a palavra sufocada, até que ambos — o marido e o domingo —
pregassem ao seu lado. Isso aconteceu logo após ela ter dito seguidas vezes ao
seu ouvido: “toma-te”, naquele encontro inopinado no quarto do casal, o que fazia luas que não acontecia!
“Toma-te”. Por quase
um nada, o domingo se esvaíra entre os monossílabos trocados, as saladas do
almoço e até mesmo um cafezinho, sem que o verbo fizesse ponto na esquina. Foi
o que aconteceu quando o pássaro trêmulo da língua voou na casa de dona Maricota
(por favor, não me digam: “que nome estranho esse!”), depois que ela trancou a
porta e conferiu a tranca três vezes, como sempre fazia em suas fúteis manias
do dia a dia. Em seguida, puxou a cadeira e se sentou, pernas estiradas, para
sorver o café tirado na hora.
Com as vastidões das
lembranças bem vivas na cabeça, acabou, sem querer, entornando-o na sua
camisola de dormir. Ficou muito zangada porque o marido, que não lhe despregava
os olhos, tirou uma foto do instante e, em tom de galhofa, ameaçou colocar nas
vitrines das redes aquele registro pessoal, íntimo. Ela tinha puxado a camisola
acima das coxas para não se queimar.
Ela amuou, fez
beicinho com a camisola manchada e com as brincadeiras do marido, mesmo sabendo
que ele jamais divulgaria sua foto pelas redes sociais; ele a conhecia bem e
sabia que ela não ficaria satisfeita. Ele carregaria água no cesto para não
aborrecê-la. "Se preciso fosse, meu amor, a chama no meu peito ainda
queima, nada foi em vão..." — alô, alô, Gonzaguinha, cantando aí no
céu? Me perdoe, Waltinho Queiroz, pelo uso do seu modelo!
Esse contratempo era
o pretexto para suas dissimulações, sem que ela, assustada, de repente
suspeitasse. Assim, para deixá-la mais arfante, de boca aberta — pois fazia
parte do jogo —, ele se ajoelhou e beijou os dedos dos seus pés até que
ficassem molhados de saliva. Ela dizia não gostar dessas coisas; para ela, era
pirraça, como ele fazia todas as manhãs.
Quando ele abria os
olhos, ela já estava acordada fazia um bom tempo. Então, ele se virava,
encostava-se e dizia: “Essa poupança me faz dormir de novo. Chegue para cá;
antes, vou dar bombadas, de leve, elas vão lhe fazer bem”. E fazia movimentos
circulares, esfregando meio lá, meio cá — se me entendem —, aquela coisa entre
as pernas. Fazia isso ora lenta, ora freneticamente, e perguntava sempre
sorrindo: "Me diga, você prefere assim?". Interrompia os movimentos
esperando sua reação e olhava para ela, sorrindo. E ela sorria também. Ele
recomeçava com um vaivém igualmente frenético e perguntava: “Ou assim?”,
dando-lhe novas bombadas. Tentava beijá-la com a boca suja, mas ela sorria sem
graça, afastando-o e dizendo-lhe, enquanto apontava para o banheiro: “Vai lá,
escove os dentes e volte, que eu deixo, seu porquinho”.
Assim começava, só
de pirraça, a sessão matinal do "lambe-lambe", como ela a chamava.
Pois, como eu dizia, com muita força de vontade ela arrancou os pés das mãos
dele. Inutilmente. A salivação já tinha alcançado outro patamar. Não era
pirraça, ela já admitia. Subia uma comichão; ela disse depois que não estava
morta e, por quase nada, ligeira, desprendeu os cabelos. Como estava abstêmia —
pois fazia tempo que não sabia o que era aquilo para valer —, entregou-se.
Sentia que era alguém com a obrigação de renascer, de respirar de novo a
frescura do prazer, sentir a carne e as veias que latejavam. Sentia a pólvora
queimando suas entranhas. Enquanto um pé da sandália ficava no corredor da
casa, sentia um tremor nas mãos ao desembaraçar-se das vestes como se fosse a
protagonista de um filme de amor com final feliz.
Depois do lufa-lufa,
arfando, ele caiu para o lado, prostrado — sinal de que a coisa tinha sido boa
— e dormiu rapidamente. Ainda degustando aquele gozo dominical, ela parecia ter
esquecido o "nunca aos domingos". Afinal, dessa vez, a chapa esquentou
na hora da Ave-Maria!
Depois de ouvir e relaxar com Wagner, conhecido por sua intensidade, por sua paixão e por sua grandiosidade, Imaculada, minha estimada gata, em um estado de espírito elevado, quase romântico, despojado, decidiu
deixar-se amar ao defrontar-se com um pássaro cantor pousado na
janela do alpendre, e o fez porque foi tocada pela cena que parecia dizer-lhe mais sobre o que
flui na alma, pois para sustentar o peso do próprio voo,
elaborou a minha elegante gata, é preciso o pouso para que o
peito, enfim, se acalme.
Você sabe o que acontece com as
cores do arco-íris quando elas se desmancham nos céus? Não? Então pergunte aos
beirais para que eles contem sobre o quieto pranto saudoso que elas exalam
quando se despem nos céus.
Os beirais não guardam segredos
e podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não apague a nitidez
dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do corvo que rasga
a escuridão à tua frente.
Sim, querida, ainda vou à igreja
da Penha, mas esqueça o que se esvai por entre os dedos e escorre pelas
mãos – além das palavras às quais renunciamos, o que ficou trancado
por lá, e a fome em que nos afundamos. Guardemos os alentos das primeiras horas
deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me, ainda que de
passagem, pois, por mais que tente, os teus olhos não saberão recobrá-los.
Tampouco a tua memória.
E saibas também, sequioso, que
as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom timoneiro arrastando o peso do
mundo; não, não encalho no raso, e os patos me consolam quando os observo de
algum telhado aberto nas asas do tempo. E guarda teu riso de menina no clarim
da alvorada.
Ah, não me pergunte sobre a
doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta, por favor, ao sorrir
para mim porque, instintiva, a presunção da minha inocência reagirá a esse
filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de tudo, tudo, por
favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E, sem alarde, não se oponha. É
só uma lufada de vento o que lhe digo. Sou o dono circunstancial do meu
silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro.
Esqueça tudo do ano que passou,
o retrovisor do Uber, o vaivém das cortinas, a música de Wagner, a estação da
chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das praças em que repassávamos
os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o horizonte turvo, as espumas de
um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena revirar os perdidos
sonhos.
E, por favor, não desplugue a
tomada deste solo exato, pois ainda haverá tempo para ler a portuguesinha que
você recomendou e esmiuçar a sua poesia. Será depois do caldo verde, antes que
a luz da lua transpasse seus versos.
Por favor, eu sei. É sobre a
vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça. As palavras não têm
descanso em cada poema, como você o disse. São versos que enlevam, alucinam,
provocam e nos tornam seu escravo, tamanho o domínio da língua e o vigor da sua
poesia, quase o repito. Por favor, não desconsidere esta observação: eu não
quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me peça que publique os
meus alfarrábios também.
No estágio atual, ou seja, no
meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos seus grandes lábios a dez
mil pés de altura, no toalete do avião, sob o calor dos teus suspiros, a
qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor, não me pergunte outra
vez sobre o livro, pois, só por desfaçatez, vou confessar que sou escravo do
desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando meus dedos no teclado
remontam o tempo do vivido.