quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Clamor

 

Imagem Pixabay

Descabido, penso diferente

do que sonho, embora o inefável

me acene tão leve, por acaso

mais leve que claro, sem ferir

 

o corpo que contraio. Assim, não me

aferro ao amor da existência que me

fere a pele, aguça minha sede, aflige

meu sono e me abandona às margens

 

dessa vida em que me diluo sem saber

se o que em mim estava me subjugava

ao nada ou é o excesso que se move

 

como um rio, ou é uma febre que só

a si mesma se compara e distende-se

por dentro como um par de asas.


                    Dos meus alfarrábios

                    José Carlos Sant Anna

                     


         

2 comentários:

  1. Lindo o poema. O clamor quando descabido e inexpressável possui beleza e intensidade e essa febre quase sempre congênita, me faz lembrar a dupla sertaneja que se 'tivesse um par de asas bateria o recorde dos cem metros rasos e se estivesse longe da sua casa, pediria a Deus um par de asas.' Sublime, Sant Anna .
    Minha admiração inefável. E meu abraço .

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  2. Eros, 😬 José Carlos

    teu poema caminha sobre uma linha fina entre o abismo e o voo. Há nele um corpo que pensa, um pensamento que sangra e um sonho que tenta se manter leve “mais leve que claro” como se a lucidez fosse pesada demais para certas verdades da alma.

    A palavra inefável não está ali por acaso: ela paira sobre os versos como névoa suave, anunciando aquilo que não cabe na língua, mas insiste em existir no sentir. O eu lírico se contrai, se dilui, se desfaz em margens, e nesse movimento de perda nasce também uma espécie de expansão esse “excesso que se move como um rio”, febre viva, pulsante, que não adoece, mas transforma.

    Há uma solidão bonita no poema, dessas que não pedem socorro, apenas espaço. Um cansaço existencial que não se rende ao nada, mas o encara, negocia com ele, dança à beira. E quando surgem as “asas”, não parecem fuga parecem maturação da dor, transfiguração do peso em possibilidade de altura.

    Teu texto não explica: respira. Não grita: vibra em silêncio. É desses poemas que não se leem, se transpõe . E quem atravessa, não sai ileso sai mais fundo.
    Lindo meu querido amigo!

    Com carinho
    Nanda

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