Descabido, penso
diferente
do que sonho, embora
o inefável
me acene tão leve,
por acaso
mais leve que claro,
sem ferir
o corpo que
contraio. Assim, não me
aferro ao amor da
existência que me
fere a pele, aguça
minha sede, aflige
meu sono e me
abandona às margens
dessa vida em que me
diluo sem saber
se o que em mim
estava me subjugava
ao nada ou é o
excesso que se move
como um rio, ou
é uma febre que só
a si mesma se
compara e distende-se
por dentro como um par de asas.
Dos meus alfarrábios
José Carlos Sant Anna

Lindo o poema. O clamor quando descabido e inexpressável possui beleza e intensidade e essa febre quase sempre congênita, me faz lembrar a dupla sertaneja que se 'tivesse um par de asas bateria o recorde dos cem metros rasos e se estivesse longe da sua casa, pediria a Deus um par de asas.' Sublime, Sant Anna .
ResponderExcluirMinha admiração inefável. E meu abraço .
Eros, 😬 José Carlos
ResponderExcluirteu poema caminha sobre uma linha fina entre o abismo e o voo. Há nele um corpo que pensa, um pensamento que sangra e um sonho que tenta se manter leve “mais leve que claro” como se a lucidez fosse pesada demais para certas verdades da alma.
A palavra inefável não está ali por acaso: ela paira sobre os versos como névoa suave, anunciando aquilo que não cabe na língua, mas insiste em existir no sentir. O eu lírico se contrai, se dilui, se desfaz em margens, e nesse movimento de perda nasce também uma espécie de expansão esse “excesso que se move como um rio”, febre viva, pulsante, que não adoece, mas transforma.
Há uma solidão bonita no poema, dessas que não pedem socorro, apenas espaço. Um cansaço existencial que não se rende ao nada, mas o encara, negocia com ele, dança à beira. E quando surgem as “asas”, não parecem fuga parecem maturação da dor, transfiguração do peso em possibilidade de altura.
Teu texto não explica: respira. Não grita: vibra em silêncio. É desses poemas que não se leem, se transpõe . E quem atravessa, não sai ileso sai mais fundo.
Lindo meu querido amigo!
Com carinho
Nanda