domingo, 25 de janeiro de 2026

Tio Tonho

 

                                                                                                        
                                                                                               dedico a Dalton Trevisan*

Manhã cinzenta nos Alagados.

O menino tinha acabado de fazer os deveres da escola e trafegava entre a incerteza de um sim e a certeza de um não, se preparando para abastecer a casa com a água do chafariz em terra firme da incipiente área urbana, quando ouviu um burburinho do lado de fora, além das quatro paredes de restos de madeira e papelão do barraco. 

Nele, moravam os quatro irmãos: dois meninos, duas meninas, ele e a mãe. As meninas ainda pequenas. Aquele burburinho não era um recado de amor deixado pelos passarinhos. Imaginou. Logo, ele não pensou duas vezes. Mais que depressa, pegou a toalha da rodilha, a lata grande, de flandres, para tomar, pelas pontes de madeira, o rumo do chafariz e trazer a novidade para casa, além da água.

Num piscar de olhos, de boa cepa como era, ele estava pronto para cumprir outra das suas obrigações. A primeira era estudar; a segunda, ajudar nas tarefas da casa com os seus irmãos, embora lhe coubesse sempre um quinhão maior. Seus irmãos estudavam em escola de tempo integral com alimentação. Do café da manhã à sopa no final da tarde, antes de voltarem para casa. Era uma grande adjutório do governo para a família do menino, quando o ensino público se garantia e ajudava a sustentar famílias. Por isso, ele sempre ponderava com sua mãe que tinha mais coisas a fazer do que seus irmãos.

O menino gritou da porta da rua:

— Mãe, vou pegar a água no chafariz.

E não esperou a resposta de sua mãe. A máquina de costura rasgava o silêncio do barraco. 

Com o delay, ouviu, longe, a resposta da mãe: 

— Não fique na rua. Chafariz e casa!

Ele não chegou em ânsias ao chafariz, não chegou botando os bofes pela boca, porque estancou no meio do caminho ao ver um homem na superfície da água que, para sorte dele, a maré estava cheia. Esperto, intuiu que o burburinho vinha do jeito que ele se mexia entre as casas na água.  

Logo matutou como se fosse um capiau: "aquele homem poderia ter pulado na água por uma janela, o que ele não teria feito, se fosse maré baixa, uma vez que a água refluía completamente, deixando os mourões dos barracos cobertos de ostras e a lama visguenta à mostra sob uma ou outra poça. Por que estaria se escondendo?"

A manhã ficava mais cinzenta!

O homem não media esforços para escapar ileso do amor, que agora ele descobria que tinha os olhos grandes, porém míopes: Mergulhava. Emergia. Nadava. Mergulhava outra vez e saía mais longe da infausta casa. Quando emergia, olhava para trás para saber se estava sendo perseguido por cima das pontes. O menino mirou bem o homem e o reconheceu de pronto. O homem, vendo-o, sem dar bandeira, fez um sinal com o dedo na boca, pedindo-lhe silêncio e, com a outra, enquanto boiava, que ele se afastasse.

Pelos escombros do homem, o menino viu que seu olhar denunciava medo. Muito medo. Acuado, o menino se afastou como lhe foi pedido por gestos e atitudes, seguindo o seu caminho.

Ladi, como o chamavam, era o fugitivo. Homem fino para os padrões de moradia naqueles manguezais. Vinha do Rio de Janeiro e se exibia com as sobrinhas que moravam na mesma rua do menino. O menino sabia quem ele era. Conhecia as irmãs e as sobrinhas dele. O menino, esperto, já cobiçava uma das três sobrinhas do homem. Gostava de vê-las andando pelas pontes em suas saias plissadas rumo à escola, quando ele se babava ou se refugiava pelos cantos.

O homem que aquele homem achava que o perseguia por cima das pontes estava ocupado em surrar a mulher. E o menino, mesmo assustado, curiosidade se sobrepondo, correu sobre as pontes para pegar a água no chafariz em terra firme. 

Ele queria notícias frescas porque o homem que surrava a mulher era seu tio, soldado do fogo, como o chamavam. Um codinome. Ele se chamava Antônio. E a mulher, Rute. Tios. Mas não era um parentesco em primeiro grau. 

Os laços sanguíneos da sua mãe sempre foram mal explicados, confusos para a cabeça do menino. Tios e primos abundavam na família materna. Até que o menino acabou namorando uma delas, sem ultrapassar os limites da época. O menino tinha juízo. Não queria para si uma família desestruturada. E seguia o conselho da mãe:

—  Não arranje sarna para se coçar, menino — dizia-lhe sem disfarce e experiência. Afinal, para tomar conta de cinco filhos, ela contava tão somente com a sua máquina de costura.

No chafariz, sabiam o que tinha ocorrido na casa do tio dele. A notícia chegara ali depressa, não havia explicação para a notícia ter percorrido tão rapidamente a distância, ainda que pequena. No íntimo, o menino se vangloriava de quase ter testemunhado o incauto pular a janela do quarto e cair na água do mar para livrar-se de tio Tonho.

O bombeiro chegara na manhã cinzenta pronto para apagar o fogo da mulher. Ele desconfiava que ela pulava a cerca na sua ausência com o tal do Ladi, como ele dissera depois no seio da família para justificar a surra em tia Rute. O tio do menino queria era tê-los apanhado na cama. 

Será mesmo que ele queria?

Ladi se escafedera ao perceber o barulho na porta de entrada. E voltara ao Rio de Janeiro em voo noturno, depois de passar o dia inteiro escondendo-se, primeiro nas águas encardidas da maré, por debaixo das casas; depois, sabe-se lá onde, até a hora do voo de volta ao Rio de Janeiro.

O menino nunca mais teve notícias de tio Tonho e de tia Rute. Mas dizem as más línguas que eles nunca se separaram, porém conheceram quase todos os bairros da cidade.

 

(José Carlos Sant Anna),

28 de dezembro de 2025

Do caderno de rascunhos de Tão Preto


*Dalton Trevisan nasceu em 14 de junho de 1925 em Curitiba, Paraná, mesma cidade onde morreu em 9 de dezembro de 2024, aos 99 anos. Formado em Direito pela UFPR, chegou a exercer a advocacia durante alguns anos, tendo atuado também como crítico de cinema e repórter policial. Em 1946, aos 21 anos, criou com os amigos Erasmo Pilotto e Poty Lazarotto a revista literária Joaquim, da qual era editor e onde publicou seus primeiros contos. A revista, que tinha entre seus colaboradores Mário de Andrade e divulgou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade, terminou em 1948, depois de 21 edições, mas Trevisan continuou publicando em brochuras e folhetins. Seu primeiro livro, Novelas nada exemplares (1955), o tornou nacionalmente conhecido – a reunião de contos ganhou o prestigioso prêmio Jabuti, primeiro de quatro ao longo da carreira consagrada ainda com os prêmios Ministério da Cultura de Literatura (1996), Portugal Telecom de Literatura Brasileira, atual Oceanos (2003, dividido com Bernardo Carvalho), Camões (2012) e Machado de Assis, da ABL (2012). Entre seus livros, destacam-se ainda Cemitério de elefantes (1964), O vampiro de Curitiba (1965), do qual herdou a alcunha, Contos eróticos (1984), A guerra conjugal (1975), Macho não ganha flor (2006) e o único romance, A polaquinha (2013). Seu acervo se encontra no IMS - Instituto Moreira Salles. In: https://ims.com.br/titular-colecao/dalton-trevisan/

10 comentários:

  1. Querido Eros,

    teu texto me percorreu um espaço por dentro, como essa maré turva que corre por baixo das casas dos Alagados: silenciosa, densa, carregada de histórias que não se dizem por inteiro, mas que pesam. Há nele uma narrativa que sabe esperar, observar, construir clima antes de entregar o acontecimento. A “manhã cinzenta” não é apenas paisagem é estado de alma, prenúncio, moldura emocional que acompanha cada gesto do menino e cada movimento suspeito do homem na água.

    O menino, em tua escrita, não é só personagem: é consciência em formação. Ele já vive dividido entre o dever e o desejo, entre a obrigação doméstica e a curiosidade pelo mundo. Isso o torna profundamente emoção. Ele carrega água, mas também carrega rumores, segredos, imagens que vão se sedimentando dentro dele como lama de mangue. Sua infância não é leve é funcional, prática, atravessada por responsabilidades que chegam cedo demais.

    O espaço é uma das forças mais bonitas do texto. As pontes, a maré, os barracos, o chafariz em terra firme criam uma geografia simbólica: de um lado, a precariedade flutuante; do outro, o chão firme da cidade. Entre esses dois mundos, o menino transita, quase como quem atravessa fronteiras entre inocência e experiência. O mangue não é cenário neutro ele respira, esconde, revela, protege e denuncia.

    A figura de Ladi surge envolta em ambiguidade, e isso é potente. Ele é ao mesmo tempo sedutor, covarde, frágil. A fuga pela água, descrita em movimentos repetidos de mergulho e emergência, cria uma cena cinematográfica e simbólica: o amor míope que tenta escapar das consequências. Já o tio Tonho representa a face mais dura do poder masculino a violência travestida de honra, o ciúme que vira desculpa para a brutalidade. O contraste entre esses dois homens reforça o drama moral sem necessidade de discursos explícitos.

    Há também uma delicadeza triste na maneira como tu introduces o desejo adolescente do menino pelas sobrinhas. Ele observa, se esconde, se envergonha. É um desejo ainda tímido, em formação, que contrasta violentamente com o amor adoecido dos adultos. Esse espelhamento é sutil e profundo: mostra como o afeto pode nascer puro, mas ser deformado pelas estruturas sociais e emocionais.

    O final, aberto e sustentado por rumores, me parece extremamente coerente com o universo que tu constróis. Nos Alagados e em tantas periferias do mundo as histórias raramente têm fechamento limpo. Elas se dissolvem em boatos, mudanças de bairro, sumiços, silêncios. E tu respeitas essa verdade sem romantizá-la.

    Teu texto, Eros, não busca espetacularizar a miséria nem dramatizar em excesso a dor. Ele prefere o caminho mais difícil: o da observação sensível, da tensão contida, do detalhe cotidiano que revela o abismo. E é justamente aí que ele se torna forte, honesto e literariamente vivo.

    Com carinho e admiração pela tua escrita,

    Nanda 😘🙏🏻

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Teu olhar sensível me emocionou, Nanda. Sem anzol, qual rede de arrasto, trouxe tudo à tona. O que você não disse explicitamente, apreendeu e insinuou.
      Gostei da leitura do sujeito receptivo que fostes. Com gana, com singeleza, com maestria.
      Plagiando Djavan, o menino sabe as esquinas por onde passou...
      Um afetuoso abraço,
      Eros

      Excluir
  2. Uma história que nos toca. Um menino que vai buscar água e com ela carrega segredos e desejos. Tudo o que acontece nas periferias tem narrativas que só alguns entendem. Como se escapassem do olhar dos outros. Gostei muito, meu Amigo José Carlos.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  3. Visualizei a cena do belíssimo conto cheio de imagens! Uma escrita que prende o leitor. Gostei muito de ler.
    Beijinhos e boa semana!

    ResponderExcluir
  4. Olá, Eros!
    Será que esse menino carrega água na peneira? É possível, dado o contexto no qual se apresenta. Uma história que traduz o modo de viver de tantos invisíveis por este mundo afora, os estados da alma de cada um tendo que enfrentar as agruras da vida.
    Gostei muito, parabéns pela escrita incisiva e ao mesmo tempo suave.
    bjsssssss, marli

    ResponderExcluir
  5. Um texto intenso e cheio de aventuras. Um menino e seus desejos e segredos. Gostei muito da leitura.
    feliz dia

    ResponderExcluir
  6. JC, teu conto é uma justa e perfeita homenagem ao Vampiro de Curitiba!

    ResponderExcluir
  7. Este excelente conto poderia ser o início de um livro, já que a sua escrita denota um grande fôlego literário.
    Boa semana caro amigo José Carlos.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  8. Olá, amigo José Carlos, gostei muito desta excelente postagem,
    por dois motivos bastante fortes:
    o conto escrito por você mostra a sensibilidade de um grande contista,
    que deixa o leitor na expectativa dos fatos narrados, até o seu final com desfecho primoroso, mostra do seu talento; o segundo motivo
    está na menção feita a Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba.
    Se não tiver enganado devo ter lido a integridade da obra de Trevisan,
    que a tenho comigo, o que tem me possibilitado releituras.
    Ele foi, no meu entender um dos cinco maiores contidas brasileiros.
    Votos de uma excelente semana!
    Grande abraço, amigo.

    ResponderExcluir
  9. Olá, meu amigo José Carlos,
    e por falar em conto, essa magnífica forma literária,
    que conta histórias em curto espaço, tenho que confessar que gosto de muitos contistas estrangeiros e brasileiros, dentre os contistas brasileiros, tenho a dizer que dois deles são muito importantes:
    José Carlos Sant Anna, representante da Bahia, e Dalton Trevisan, representante do Paraná.
    Como se vê, esses dois nomes estão juntos nessa magnífica postagem, o primeiro com o seu maravilhoso conto e o outro,
    Trevisan, a quem foi objeto da homenagem feita por José Carlos.
    Uma boa semana ao querido amigo.
    Um Beijo.

    ResponderExcluir

De cores e chuva

  Em vez de verbo, chuva em um único clique. E dançam as gotas antes de escorrerem no vidro da janela ou no asfalto pelas ruas. Gotas ...