Manhã
cinzenta nos Alagados.
O menino tinha acabado de fazer os deveres da escola e trafegava entre a incerteza de um sim e a certeza de um não, se preparando para abastecer a casa com a água do chafariz em terra firme da incipiente área urbana, quando ouviu um burburinho do lado de fora, além das quatro paredes de restos de madeira e papelão do barraco.
Nele, moravam os quatro irmãos: dois meninos, duas meninas, ele e a mãe. As meninas ainda pequenas. Aquele burburinho não era um recado de amor deixado pelos passarinhos. Imaginou. Logo, ele não
pensou duas vezes. Mais que depressa, pegou a toalha da rodilha, a lata grande, de
flandres, para tomar, pelas pontes de madeira, o rumo do chafariz e trazer a
novidade para casa, além da água.
Num
piscar de olhos, de boa cepa como era, ele estava pronto para cumprir outra das suas obrigações. A
primeira era estudar; a segunda, ajudar nas tarefas da casa com os seus irmãos,
embora lhe coubesse sempre um quinhão maior. Seus irmãos estudavam em escola de tempo integral com alimentação. Do café da manhã à sopa no final da tarde, antes de voltarem para casa. Era uma grande adjutório do governo para a família do menino, quando o ensino público se garantia e ajudava a sustentar famílias. Por isso, ele sempre ponderava com sua mãe que tinha mais coisas a fazer do que seus irmãos.
O
menino gritou da porta da rua:
— Mãe,
vou pegar a água no chafariz.
E
não esperou a resposta de sua mãe. A máquina de costura rasgava o silêncio do
barraco.
Com o delay, ouviu, longe, a resposta da mãe:
— Não
fique na rua. Chafariz e casa!
Ele
não chegou em ânsias ao chafariz, não chegou botando os bofes pela boca, porque estancou no meio do caminho ao ver um
homem na superfície da água que, para sorte dele, a maré estava cheia. Esperto, intuiu que o burburinho vinha do jeito que ele se mexia entre as casas na água.
Logo matutou como se fosse um capiau: "aquele
homem poderia ter pulado na água por uma janela, o que ele não teria feito, se fosse maré baixa, uma vez que a água refluía
completamente, deixando os mourões dos barracos cobertos de ostras e a lama
visguenta à mostra sob uma ou outra poça. Por que estaria se escondendo?"
A manhã ficava mais cinzenta!
O
homem não media esforços para escapar ileso do amor, que agora ele descobria que tinha os olhos grandes, porém míopes: Mergulhava. Emergia. Nadava. Mergulhava outra vez e saía mais longe da infausta casa. Quando emergia, olhava para trás para saber se estava
sendo perseguido por cima das pontes. O menino mirou bem o homem e o
reconheceu de pronto. O homem, vendo-o, sem dar bandeira, fez um sinal com o dedo na boca, pedindo-lhe
silêncio e, com a outra, enquanto boiava, que ele se afastasse.
Pelos escombros do homem, o menino viu que seu olhar denunciava medo. Muito medo. Acuado, o
menino se afastou como lhe foi pedido por gestos e atitudes, seguindo o seu caminho.
Ladi, como o chamavam, era o fugitivo. Homem fino para os padrões de moradia
naqueles manguezais. Vinha do Rio de Janeiro e se exibia com as sobrinhas que
moravam na mesma rua do menino. O menino sabia quem ele era. Conhecia as irmãs e as sobrinhas
dele. O menino, esperto, já cobiçava uma das três sobrinhas do homem. Gostava
de vê-las andando pelas pontes em suas saias plissadas rumo à escola, quando
ele se babava ou se refugiava pelos cantos.
O
homem que aquele homem achava que o perseguia por cima das pontes estava
ocupado em surrar a mulher. E o menino, mesmo assustado, curiosidade se
sobrepondo, correu sobre as pontes para pegar a água no chafariz em terra
firme.
Ele
queria notícias frescas porque o homem que surrava a mulher era seu tio, soldado
do fogo, como o chamavam. Um codinome. Ele se chamava Antônio. E a mulher, Rute. Tios.
Mas não era um parentesco em primeiro grau.
Os
laços sanguíneos da sua mãe sempre foram mal explicados, confusos para a cabeça do menino. Tios e primos abundavam na família materna. Até que o menino acabou namorando uma delas, sem ultrapassar os
limites da época. O menino tinha juízo. Não queria para si uma família
desestruturada. E seguia o conselho da mãe:
—
Não arranje sarna para se coçar, menino — dizia-lhe sem disfarce e experiência. Afinal, para tomar conta de cinco filhos, ela contava tão somente com a sua máquina de costura.
No
chafariz, sabiam o que tinha ocorrido na casa do tio dele. A notícia chegara
ali depressa, não havia explicação para a notícia ter percorrido tão rapidamente a distância, ainda que pequena. No íntimo, o menino se vangloriava de quase ter testemunhado o incauto pular a
janela do quarto e cair na água do mar para livrar-se de tio Tonho.
O bombeiro chegara na manhã cinzenta pronto para apagar o fogo da mulher. Ele desconfiava que ela pulava a cerca na sua ausência com o tal do Ladi, como ele dissera depois no seio da família para justificar a surra em tia Rute. O tio do menino queria era tê-los apanhado na cama.
Será mesmo que ele queria?
Ladi
se escafedera ao perceber o barulho na porta de entrada. E voltara ao Rio de
Janeiro em voo noturno, depois de passar o dia inteiro escondendo-se, primeiro nas águas encardidas da maré, por debaixo das casas; depois, sabe-se lá onde, até a hora do voo de volta ao Rio de Janeiro.
O
menino nunca mais teve notícias de tio Tonho e de tia Rute. Mas dizem as más línguas que eles nunca
se separaram, porém conheceram quase todos os bairros da cidade.
(José Carlos Sant Anna),
28 de dezembro de 2025
Do caderno de rascunhos de Tão Preto
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