"Que
por sorte..." De longe é o que ela me diz em um bilhete apressado,
mascando um chiclete, pretexto para quebrar o silêncio, depois de ter
fotografado a rua pela janela do apartamento dos filhos onde está alojada e
anexado a foto à mensagem. Assim, ela me dá conta de que chove do outro lado do
mundo e de que os balões que sobem são do cappuccino, nunca banido da ordem do
dia, a dizer-me: “A chuva e um friozinho invadem a cidade e pedem um café bem
quente, você não percebe?”. E que sorte teve a menina, que sorte, tal como ela
o confessou no bilhete. Mas... há sempre um, mas se sobrepondo, o que se há de
fazer? Antes, deixe-me dizer-lhe que a chamo de menina, dissimuladamente, faz
tempo. Ela permitiu essa intimidade e até a alimentou. Só essa, nenhuma outra
cresceu junto com o desejo que latejava. Nunca abriu as portas para qualquer
outra manifestação. Só um flerte. Dura anos. Uma idealista, romântica sem cura.
Qualquer semelhança com o José Matias, de Eça de Queirós, usando saia... Ela
não gostou da comparação e amuou do outro lado...
E
qual foi mesmo a sua sorte, qual, pergunta-me o leitor apressadinho? Ter
encontrado na “estante do quarto da família onde está alojada”, como ela diz, A
Cidade do Sol, do romancista e médico nascido na cidade de Cabul, lá no
Afeganistão, Khaled Hosseini, publicado pela primeira vez em 2007. Lá se vão
quase duas décadas atravessando o túnel do tempo. Um sopro. E por lá, pelo
Afeganistão, talvez pouca coisa tenha mudado na dor das mulheres, embora a
poeira da história continue a girar.
O
importante é ler, não é escrever, diz a amiga Betinha; há muitos escritores por
aí, são os leitores que fazem falta. Portanto, o atraso será recuperado num
piscar de olhos. Depois, se ela ainda não sabe, descobrirá que Hosseini é o
autor de O Caçador de Pipas e, assim, ela poderá continuar deitando os
olhos até descobri-lo na estante, quem sabe? É tanto “se” na vida de cada um...
E como sou um homem prático, imaginei que, se a menina tiver fôlego para as 384
páginas da edição brasileira de A Cidade do Sol, a vida nos dias de
chuva do outro lado do mundo será preenchida com a realista história de
Hosseini.
José Carlos Sant Anna,
maio de 2025.

Olha, achei instigante : O importante é ler, não é escrever, diz a amiga Betinha; há muito escritores por aí, são os leitores que fazem falta.
ResponderExcluirUma sábia declaração. Li Os Caçadores de Pipa há alguns anos mas não li Cidade do Sol. Teu texto refrescou minha memória de que preciso ler esse também.
Você escreve de forma muito elegante.
Concordo com o comentário do Eduardo sua escrita além de elegante é inspiradora e instiga a leitura desse grande escritor Hosseini. Eu li e gostei. Retrata a vida de muheres afegãs, com destinos semelhantes e conflitos religiosos e étnicos.
ResponderExcluirVale muito as 384 páginas.
E vale ainda mais se deliciar com o cronista JCSant Anna, e o sol iluminando suas janelas.
Obrigada e abraços.
Eros, que crônica delicada e, ao mesmo tempo, tão potente! Você entrelaça o cotidiano e a literatura com um lirismo que faz o leitor atravessar o bilhete, a chuva, o café e pousar, quase sem perceber, no coração ferido do Afeganistão. “A Cidade do Sol” não poderia ser melhor companhia para dias nublados — e para almas que, como a “menina”, guardam em si a leveza do flerte e a profundidade das dores do mundo. Sua escrita tem esse dom raro: a suavidade que provoca, que inquieta, que carrega ternura sem perder o peso do real. Sim, ler é um ato de resistência, de empatia, de reconstrução interior. E você, ao escrever, nos convida justamente a esse reencontro com a humanidade.
ResponderExcluirBravo, e obrigada.
Deve ser muito bom ler esse livro "A cidade do sol" de Khaled Hosseini. Eu não li e é pena porque a reflexão que sugere é muito importante para mim. Vou procurar ler esse livro que fala da injustiça e sofrimento sobre as mulheres não só no Afeganistão mas pelo mundo fora. Concordo com a amiga Betinha sobre a importância de ler. Como referiu Eduardo Lourenço é como leitores que somos literatura, paisagem invadida e iluminada por todas as emoções.
ResponderExcluirObrigada por partilhar aqui a sua escrita tão sensível e inteligente.
Tudo de bom, meu Amigo José Carlos.
Um beijo.
O texto é um misto de crônica e resenha, tecendo um relato sensível que mescla o cotidiano de uma personagem com a dura realidade retratada em *A Cidade do Sol*, de Khaled Hosseini. A narrativa transita habilmente entre a intimidade da troca de mensagens e a vastidão dos temas abordados no romance, criando um contraste entre o cenário acolhedor do apartamento e o contexto brutal do Afeganistão. A referência ao *José Matias* de Eça de Queirós confere um tom literário refinado, sugerindo que a protagonista é uma idealista presa a um amor platônico, enquanto a leitura do livro parece ser um despertar para realidades mais cruas. A voz narrativa é irônica e terna, revelando a preocupação do narrador com a “menina” e a intenção de acender um sol metafórico em meio às tempestades da vida. A última linha, com sua promessa de guardar um pouco do sol, é um fecho poético que toca o leitor com uma delicada esperança. Um texto envolvente, com camadas sutis e um lirismo que pulsa entre as linhas.
ResponderExcluirBEIJOS
Magnífico texto, que dá gosto ler.
ResponderExcluirIsto é literatura a valer.
Boa semana caro amigo.
Um abraço.
Olá, Jose Carlos
ResponderExcluirUma excelente resenha. Li o Caçador de pipas, e estou muito interessada na Cidade do sol. Principalmente depois que li seu post.
Tenho sempre um bocadinho de sol para dias frios e nublados. Seja bem vindo ao esconderijo.
feliz dia.
ResponderExcluirUm texto para ser relido, saboreado e guardado no coração.
Beijos
Num tom fluido e encantatório, apresenta-nos este livro de K. Housseini, "A cidade do Sol", e, de passagem, também refere "O caçador de pipas". Um gosto ler este seu texto em forma de missiva, um bilhete gostoso ao qual chama o "José Matias" com o seu interesse platónico que não "desemburra"...
ResponderExcluirQuanto ao tema do livro, as mulheres têm passado por situações deveras difíceis, desde sempre, e se no mundo dito ocidental se têm verificado melhorias o mesmo não se verifica em países como o Afeganistão.
Uma leitura urgente, tanto deste como de outros livros que versem sobre a matéria.
Grande abraço, José Carlos.
Olinda
Olá!
ResponderExcluirParabéns pelo texto, uma prosa poética, uma crônica/resenha muito agradável de ler.
"A Cidade do Sol" é um livro inesquecível. Literatura de verdade. E nesse livro, Khaled Hosseini se superou(!) desenhando duas personagens incríveis, absolutamente contrastantes, íntegras e inteiras, cada uma com seus próprios dramas e frustrações. E o final é surpreendente.
Também li "O Caçador de Pipas", outro livro daqueles "para sempre".
Adorei você ter trazido à lume esse livro (que certamente está em muitas prateleiras, sem leitura). Um livro considerado "antigo" para os modernos leitores da atualidade.
Abraços, Marli.
José, o seu texto revela, com delicadeza e densidade emocional, um diálogo epistolar que mescla a crônica cotidiana à reflexão literária e social. A narrativa, embora ancorada em gestos simples como o envio de uma foto ou a lembrança de um cappuccino, se desdobra em múltiplas camadas: o reencontro com a literatura, a evocação de uma afetividade contida e, sobretudo, a denúncia silenciosa da opressão feminina retratada na obra A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini.
ResponderExcluirA construção da figura da "menina", ao mesmo tempo próxima e inalcançável, humaniza o texto, conferindo-lhe um tom íntimo, quase confessional, sem perder o rigor reflexivo. O autor habilmente entrelaça memória, literatura e crítica social, oferecendo ao leitor não apenas uma leitura, mas um convite à escuta sensível e ao exercício da empatia.
Em tempos em que a leitura se vê ofuscada pela pressa e pelo ruído, textos como este reafirmam o poder da palavra para lançar luz sobre o que insiste em permanecer à sombra — seja o amor contido, seja a violência silenciosa que atravessa tantas vidas.
Abraços do amigo
Daniel