segunda-feira, 22 de junho de 2026

O poema mais claro

 

Imagem Pinterest


Pus as palavras à parte: as cinzentas de um lado e as claras do outro, escrevendo-as com os dedos enquanto a carne pulsava. Tinta negra no seu dorso claro, o que fazia a alegria de Berta — a professora que turvou meus olhos de lança-perfume e depois me tomou nos seus braços, escavando o meu corpo como se fosse uma página aberta da minha escrita.

Um corpo a corpo fluido que me fazia esquecer a queimação nos olhos e me entregava à outra — àquela gramática em que ela me iniciava. O quarto girava na cadência dessa gramática viva. Eu estava ali, sem entender o abismo das mãos em busca do corpo dela e dos dentes das letras na sua boca de mil bocas, uma sede ardente me engolindo, despenhando-me no abismo que ela mesma escrevera.

Ali embaixo, no escuro da semântica de Berta, percebi que minhas mãos já não sabiam separar as palavras claras das cinzentas. Ela havia misturado todas as tintas. Eu já não possuía dedos para escrever; pertencia agora à margem dos seus cadernos, à volúpia dos seus abraços, ao ponto final que ela impunha com os sussurros soprados na minha nuca. Eu me tornara o seu poema mais claro, aquele que ela declamava em silêncio enquanto me devorava com a precisão de quem corrige um erro. 

José Carlos Sant Anna, 
Extraído dos meus alfarrábios


Nenhum comentário:

Postar um comentário

O poema mais claro

  Imagem Pinterest Pus as palavras à parte: as cinzentas de um lado e as claras do outro, escrevendo-as com os dedos enquanto a carne pulsav...