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Pus as palavras à parte: as cinzentas
de um lado e as claras do outro, escrevendo-as com os dedos enquanto a carne
pulsava. Tinta negra no seu dorso claro, o que fazia a alegria de Berta — a
professora que turvou meus olhos de lança-perfume e depois me tomou nos seus
braços, escavando o meu corpo como se fosse uma página aberta da minha escrita.
Um corpo a corpo fluido que me fazia
esquecer a queimação nos olhos e me entregava à outra — àquela gramática em que
ela me iniciava. O quarto girava na cadência dessa gramática viva. Eu estava
ali, sem entender o abismo das mãos em busca do corpo dela e dos dentes das
letras na sua boca de mil bocas, uma sede ardente me engolindo, despenhando-me
no abismo que ela mesma escrevera.
Ali embaixo, no escuro da semântica de Berta, percebi que minhas mãos já não sabiam separar as palavras claras das cinzentas. Ela havia misturado todas as tintas. Eu já não possuía dedos para escrever; pertencia agora à margem dos seus cadernos, à volúpia dos seus abraços, ao ponto final que ela impunha com os sussurros soprados na minha nuca. Eu me tornara o seu poema mais claro, aquele que ela declamava em silêncio enquanto me devorava com a precisão de quem corrige um erro.

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