segunda-feira, 6 de julho de 2026

O menino viu tudo

 


Há dias em que a cidade cinzenta e o vento frio nos obrigam a caminhar de cabeça baixa. Mas, às vezes, a rotina é interrompida por uma presença que desafia as estações — alguém que carrega o mar no corpo e o sol no olhar. A crônica a seguir é sobre esses raros instantes de beleza absoluta que lavam a alma de quem se permite parar e observar.


Outono

A verdade é que muitos viram a cena com alguma estranheza. Talvez porque já fosse outono. Aliás, no outono é assim mesmo: os dias são mais curtos e, no final da tarde, sempre esfria um pouco. Então, o que houve?

Aquele menino, ele não foi o único a ouvir os seus passos no outono — passos que sussurravam um ritmo próprio, como o estalar de folhas secas sob uma marcha decidida. É que o pássaro do verão passado passeava nos olhos da moça que caminhava pelas avenidas centrais da cidade. Tão bonitos aqueles olhos! Tão bonitos! Ela não se resguardava dos ventos outonais que teciam um cântico de aconchego em seu corpo, levando-a pela mão com um largo sorriso. Pareciam o seu dono, mas o menino sabia que, pelo seu andar, ela não tinha dono. Era insubmissa, ele já sabia.

Mulher bonita, uma diva com um vestido branco e sapatos combinando com as suas vestes, que deixava homens — grandes e fortes por uma vida inteira — carentes de aurora ou de lua cheia, como nunca se imaginaram. E como se o pássaro não bastasse, ela ainda carregava, como uma prenda, o cheiro do mar em seu corpo, exalando um aroma de maresia à roda do mundo.

Aquela festa duraria a tarde inteira? E lá vai o menino atrás da moça. Ele não era o único na admiração cega à sua beleza, que claramente todos enxergavam. Ela lavava os corações dos homens, que entortavam a cabeça para vê-la passar com o pássaro de verão nos olhos — tanto nos dela quanto nos de todos. Tão bonitos aqueles olhos.

Transparente, o céu se derramava sobre os prédios das avenidas por onde ela passava, como dentro de um envelope branco, envolta em rosas, anjos, anéis e cirandas, com a certeza de que o mundo — de norte a sul, de leste a oeste, de morro a mar — nunca se acabaria na última ceia.

A todos que não a viram, contarei.

— Cada um para falar na sua vez, cada qual em seu lugar; nenhuma ponte se estende em vão — disse o menino, chamando os que testemunharam a epifania, meninos e homens.

José Carlos Sant Anna,
Extraído dos meus alfarrábios

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