Ela ainda sentia o
lume do arroz-doce. Maricota ficou horas deitada com seu cheiro de hortelã
espalhado, o olhar perdido ora no lustre do quarto, ora no vão da janela, sem
querer que o domingo acabasse. Sentia-se feliz por ter ficado, por alguns
momentos, com a palavra sufocada, até que ambos — o marido e o domingo —
pregassem ao seu lado. Isso aconteceu logo após ela ter dito seguidas vezes ao
seu ouvido: “toma-te”, naquele encontro inopinado no quarto do casal, o que fazia luas que não acontecia!
“Toma-te”. Por quase
um nada, o domingo se esvaíra entre os monossílabos trocados, as saladas do
almoço e até mesmo um cafezinho, sem que o verbo fizesse ponto na esquina. Foi
o que aconteceu quando o pássaro trêmulo da língua voou na casa de dona Maricota
(por favor, não me digam: “que nome estranho esse!”), depois que ela trancou a
porta e conferiu a tranca três vezes, como sempre fazia em suas fúteis manias
do dia a dia. Em seguida, puxou a cadeira e se sentou, pernas estiradas, para
sorver o café tirado na hora.
Com as vastidões das
lembranças bem vivas na cabeça, acabou, sem querer, entornando-o na sua
camisola de dormir. Ficou muito zangada porque o marido, que não lhe despregava
os olhos, tirou uma foto do instante e, em tom de galhofa, ameaçou colocar nas
vitrines das redes aquele registro pessoal, íntimo. Ela tinha puxado a camisola
acima das coxas para não se queimar.
Ela amuou, fez
beicinho com a camisola manchada e com as brincadeiras do marido, mesmo sabendo
que ele jamais divulgaria sua foto pelas redes sociais; ele a conhecia bem e
sabia que ela não ficaria satisfeita. Ele carregaria água no cesto para não
aborrecê-la. "Se preciso fosse, meu amor, a chama no meu peito ainda
queima, nada foi em vão..." — alô, alô, Gonzaguinha, cantando aí no
céu? Me perdoe, Waltinho Queiroz, pelo uso do seu modelo!
Esse contratempo era
o pretexto para suas dissimulações, sem que ela, assustada, de repente
suspeitasse. Assim, para deixá-la mais arfante, de boca aberta — pois fazia
parte do jogo —, ele se ajoelhou e beijou os dedos dos seus pés até que
ficassem molhados de saliva. Ela dizia não gostar dessas coisas; para ela, era
pirraça, como ele fazia todas as manhãs.
Quando ele abria os
olhos, ela já estava acordada fazia um bom tempo. Então, ele se virava,
encostava-se e dizia: “Essa poupança me faz dormir de novo. Chegue para cá;
antes, vou dar bombadas, de leve, elas vão lhe fazer bem”. E fazia movimentos
circulares, esfregando meio lá, meio cá — se me entendem —, aquela coisa entre
as pernas. Fazia isso ora lenta, ora freneticamente, e perguntava sempre
sorrindo: "Me diga, você prefere assim?". Interrompia os movimentos
esperando sua reação e olhava para ela, sorrindo. E ela sorria também. Ele
recomeçava com um vaivém igualmente frenético e perguntava: “Ou assim?”,
dando-lhe novas bombadas. Tentava beijá-la com a boca suja, mas ela sorria sem
graça, afastando-o e dizendo-lhe, enquanto apontava para o banheiro: “Vai lá,
escove os dentes e volte, que eu deixo, seu porquinho”.
Assim começava, só
de pirraça, a sessão matinal do "lambe-lambe", como ela a chamava.
Pois, como eu dizia, com muita força de vontade ela arrancou os pés das mãos
dele. Inutilmente. A salivação já tinha alcançado outro patamar. Não era
pirraça, ela já admitia. Subia uma comichão; ela disse depois que não estava
morta e, por quase nada, ligeira, desprendeu os cabelos. Como estava abstêmia —
pois fazia tempo que não sabia o que era aquilo para valer —, entregou-se.
Sentia que era alguém com a obrigação de renascer, de respirar de novo a
frescura do prazer, sentir a carne e as veias que latejavam. Sentia a pólvora
queimando suas entranhas. Enquanto um pé da sandália ficava no corredor da
casa, sentia um tremor nas mãos ao desembaraçar-se das vestes como se fosse a
protagonista de um filme de amor com final feliz.
Depois do lufa-lufa, arfando, ele caiu para o lado, prostrado — sinal de que a coisa tinha sido boa — e dormiu rapidamente. Ainda degustando aquele gozo dominical, ela parecia ter esquecido o "nunca aos domingos". Afinal, dessa vez, a chapa esquentou na hora da Ave-Maria!
Bela música aqui nos traz, amigo José Carlos.
ResponderExcluirFiquei presa nos acordes e nesse cheiro de arroz doce.
Um domingo especial que se compraz nesse estado
de alma que não se separa do aspecto somático, uma
manhã luminosa em que "nunca ao domingo" deixa de
ter importância. Nessa contagem de luas, a lua saiu a
perder, muito bem feita por já não ser a companheira dos
namorados.
Desejo que tenha um dia feliz.
Beijinhos
Olinda
Arroz doce com cheiro de hortelã pimenta... ou hortelã brava, sei lá!...
ResponderExcluirBoa semana! Beijinhos.
Foi um domingo bem gasto antes que se esvaísse entre monossílabos e monotonia, após a salada e aquele cafezinho rotineiro quase automático , acabou tal qual o bolero romântico do Gonzaguinha e um arroz doce apimentado, como diz a nossa amiga Fá. Essa é uma prosa poética em que os personagens importam mais que o sentido literal . Te deixando abraços , Sant Anna.
ResponderExcluirUm texto maravilhoso, poderia ser o início de um romance (fôlego não falta à sua magnífica prosa).
ResponderExcluirA música do vídeo é muito boa e os músicos são do melhor que há.
Boa semana caro amigo.
Um abraço.
Li ouvindo o solo musical de Rosa. E o domingo se fez prazer, se fez bem-querer, se fez coreografia de uma dança que se dança bem aos domingos.
ResponderExcluirUm pratinho de arroz doce come-se a qualquer hora.
ResponderExcluirAmor não tem data nem hora marcada.
Bom fim de semana.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
Querido Eros,
ResponderExcluirvocê escreve essas cenas domésticas como quem abre devagar uma janela: entra cheiro de café, de hortelã, de arroz-doce… e, de repente, o amor aparece ali, amarrotado, divertido, cheio de pequenas pirraças conjugais. O bonito do texto é isso: o desejo não vem fantasiado de cinema perfeito. Ele chega entre camisolas manchadas, café derramado, dentes por escovar e domingos que quase acabam sem acontecer nada. E quem sabe seja essa a forma mais verdadeira do amor duradouro quando duas pessoas ainda conseguem brincar uma com a outra depois de tantos “faz luas”.
Maricota é dessas personagens que parecem existir de verdade em alguma casa da rua ao lado. E o marido, com suas “bombadas” e sua insistência quase adolescente, arranca risos porque lembra que o afeto também tem humor, implicância e reinvenção.
No fim, fiquei pensando que Gonzaguinha provavelmente sorriu aí do céu mesmo… embora talvez tenha pedido um pouco menos de detalhes sobre o “lambe-lambe” matinal. rss
Abraço
Nanda
Olá José Carlos,
ResponderExcluirPassei para ver as novidades.
Aproveito para lhe desejar uma boa semana.
Um abraço.
Adorei a música e bom arroz doce fazia a minha mãe. É um gosto enorme ler o que escreve. Fica-nos na boca um doce sabor e um enorme gosto pelas palavras.
ResponderExcluirTudo de bom.
Um beijo.
Que texto extraordinário… Há nele uma humanidade tão viva, tão cotidiana e, ao mesmo tempo, tão incendiária, que a leitura nos envolve sem pedir licença. A delicadeza com que o desejo foi construído impressiona profundamente: não há vulgaridade, há intimidade, cumplicidade e uma verdade emocional que pulsa em cada cena.
ResponderExcluirAdorei como o autor transforma pequenos gestos — o café derramado, a camisola manchada, os beicinhos, as brincadeiras domésticas — em combustível para uma paixão madura, dessas que sobrevivem ao tempo e ainda sabem provocar arrepios. O texto respira afeto. E isso faz toda diferença.
A personagem Maricota é encantadora justamente por sua simplicidade. Ela carrega manias, pudores, resistências e desejos represados, tornando-se extremamente humana. Já o marido surge com aquele humor provocador, quase moleque, mas profundamente apaixonado. O jogo entre os dois ficou delicioso de acompanhar.
Outro ponto belíssimo é a musicalidade da narrativa. Há um ritmo quente e suave ao mesmo tempo, como uma memória sendo contada entre suspiros. E as referências inseridas no texto dão ainda mais sabor e personalidade à escrita.
Além disso, o autor conseguiu algo raro: falar de sensualidade com lirismo. O erotismo aqui não é explícito gratuitamente; ele nasce da confiança, do toque, do reencontro, da fome adormecida voltando à vida. Isso deixa tudo mais intenso e bonito.
E aquele final… “a chapa esquentou na hora da Ave-Maria!” — simplesmente perfeito. Fecha o conto com humor, calor e um sorriso inevitável no rosto de quem lê.
Texto maduro, envolvente e extremamente bem escrito.
Passei de novo para ver as novidades.
ResponderExcluirBoa semana.
Um abraço.