domingo, 29 de março de 2026

Entre colcheias

 

Imagem Pixabay


Amanhã, anunciarei aos quatro ventos que não carregarei o tempo da educação sentimental nos meus ombros, e será muito bem feito este anúncio, embora esta afirmação não traga a convicção que me sugerem as imagens, filmes surreais nas lacunas das minhas memórias. 

Mas é o que eu digo sem preâmbulos, é o que importa, por enquanto. Ou é o que importa agora, ou é o que importa hoje, e não amanhã. E por que escrevi mornamente, como se fosse uma voluta por dentro, amanhã? Por quê?

Não sei. E ninguém sabe de incêndio outonal em campo minado. Bastam as circunvoluções para que eu esqueça as dissonâncias da cabeça pensante. É o que importa no momento.

Embora a viagem esteja anunciada para daqui a duas semanas, o que importa é saber o que foi feito das minhas malas. São nelas que as minhas letras morrem quando não se equivalem a um samba que me levam a dançar no sambódromo da vida. 

Sem as malas não há diário, digo, prestes a ligar para agência de turismo que veste personagens nas promoções de viagem. E me pergunto, mais confuso do que embasbacado: que viagem? Não há resposta. Minha agenda se perdeu em algum canto da casa e não sei se há nela algum registro dessa viagem. 

E seria possível achar alguma coisa na bagunça que a casa parece ter se acostumado para desgosto dos seus hóspedes, pais e filhos? Hoje, na esperança de pôr ordem no caos, fiz faxina na cozinha. Passei pano molhado no chão, lavei os ladrilhos, deixei a pia brilhando como se fosse uma panela que tivesse levado uma demão de bombril em suas paredes, lavei o balde de lixo e estendi no varal a roupa que dormia há três dias na máquina de lavar.

Tudo isto porque ao soar o alarme do telefone anunciando a hora de ingerir o SeloZok, remédio de uso contínuo, percebi que a bagunça da casa não me deixaria encontrá-lo. E do seu quarto minha filha aos gritos disse que o viu, caixa lacrada, dentro do micro-ondas, o que me fez lembrar da amiga Dilma, cujos filhos procediam da mesma maneira, quando ela perguntava pelos seus óculos, sempre perdidos. 

E a menina jura que ouviu o remédio perguntar a plenos pulmões que diabos ele estava fazendo ali dentro, quando ela resolveu assar os pãezinhos de queijo feitos por Margarida, a cozinheira, que não escondia a fome dos seus lábios.

Sempre achei que nessa viagem seria possível reverter as fronteiras do tempo, embora eu não saiba por onde começar o périplo com carros, estradas, viadutos, trevos, sonhos, fantasias, memórias ou a reversão do tempo, mas saberei usar compressas de água gelada para acordar as palavras quando elas chegarem febris.


Salvador, 23 de março de 2026,
José Carlos Sant Anna


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Entre colcheias

  Imagem Pixabay Amanhã, anunciarei aos quatro ventos que não carregarei o tempo da educação sentimental nos meus ombros, e será muito bem f...