Um
pedaço de vida. Talvez uma parte, a que inventamos para não ver o mundo
passar; esta, eu posso soprá-la no seu ouvido como um vento no mar.
Pois. Ainda admirava uma estampa de Viña del Mar, na véspera do Ano Novo, quando a
galega me escreveu um texto lúcido, simétrico, curto, que me fez
esquecer trapézios, redes e lonas da minha juventude. Sem enigmas.
O
texto, uma voz que tange, me fez pensar, quase ridículo, em fotogramas. Estava
tão enxuto, penetrando a folha de papel, que me levou ao velho
Graciliano, o ex-prefeito, entre outras coisas, de Palmeira dos Índios,
aquele que deu uma certa dor de cabeça na política brasileira. Aos
milicos também. Revejo a fonte do que teria sido seu erro: ele queria que pobre e preto
tivessem acesso à escola pública. Acabou preso.
Um
soberbo escritor disse Antonio Cândido.
O texto, dizia eu, trazia coisas bonitas
para esquecer os dias longos no deserto; é um curta em preto e branco,
pisca um olho para minha sombra e faz agarrar-me a uma rocha para elucubrar
sonhos míticos.
Ao
olhar cada fotograma contra a luz, penso na história que o texto revela entre
dois oceanos e nos olhos que os desnudaram.
Mas
não há fotogramas; é mudez quando tudo são palavras; mescla de
interlúdios e sonatas. E faço de conta de que tudo beira a orla do mar. Ou que o
texto sugere. E penso em Caetano Veloso, o de Chuva, suor e cerveja,
no sol que nele brilha e no que a galega dos Andes chilenos acentua: “Obrigado.
Obrigado, por ser e estar. Não me soltes. Não me percas”.
Não
penso em camuflagem depois que esta luz entra pela janela da
sala e sorrio com este canto de aurora no rio deste novo Ano
Novo.
(José Carlos Sant Anna,
Reeditado)
Boa tarde JC
ResponderExcluirHá textos que não se deixam apanhar pela explicação, mas antes pela atmosfera.
Este é um deles.
Move-se como um sopro entre memória, música e literatura, convocando imagens que não pedem decifração, apenas escuta.
A referência a Graciliano Ramos, aos fotogramas imaginados, ao mar sempre por perto, constrói uma leitura sensorial, quase cinematográfica, onde a palavra é menos discurso e mais luz.
Não entrei totalmente na mensagem, confesso, mas fiquei na sua orla, e talvez seja aí que o texto habita: nesse lugar onde sentir precede compreender, e admirar a riqueza da escrita.
Bom domingo.
Deixo um beijo
:)
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Boa Tarde
ResponderExcluirUm texto que se lê mais pelo sentir do que pela explicação.
As palavras criam imagens, ecos e referências que passam como luz sobre a água, sem pedir interpretação fechada.
Fiquei na sua margem, entre o que se sugere e o que se intui, e talvez seja exactamente aí que o texto respira.
Obrigada pelas visitas e comentários...
Um post magnifico.
ResponderExcluirPelo vídeo e pelo texto.
Gostei de ver, ler e ouvir.
Boa semana.
Um abraço.
Bom dia, amigo José Carlos
ResponderExcluirAs vozes à capela prenderam-me logo. Sinfonia que me agarrou,
música em contracanto sem uma nota desafinada. O toque da
tábua que rege e marca o ritmo...
Claro que este "umectante II" trouxe-me de novo perplexidades,
mas já devia estar habituada à sua escrita :) Traz sempre coisas
novas, nomes novos, pensares novos. Consegui identificar Graciliano
Ramos (?) romancista, cronista... Por cá temos um António Cândido ligado ao grupo dos "Vencidos da Vida", homem público, com altos cargos. E ainda o Caetano Veloso que muito admiro.
Portanto, como ligar esta gente ao desenrolar do seu texto ? Ou não é nada disso?
E a galega? E os fotogramas?
Pobre e preto com direito à escola pública é coisa que não combinava em tempos idos. E talvez ainda haja quem assim pense.
Na luz que coa da janela como um convite para ler este Ano Novo
que não se deixa ler, com tantas surpresas, ou nem por isso, vejo mistério e magia...
Seguindo o raciocínio ilógico que por aí grassa ainda teremos coisas e loiças com que nos entretermos. Que Deus nos ajude!
Dias felizes, meu amigo.
Que tudo siga com bom andamento e à medida dos seus desejos.
Beijinhos
Olinda
... coisas e loisas...
ExcluirUn pedazo de vida con sus recuerdos. Basta una melodía, un aroma, cualquier cosa por pequeña que sea, para desencadenar un torbellino interno.
ResponderExcluirRecuerdos en palabras.
Saludos.
Eros,
ResponderExcluirUau!!!
O seu texto é desses que não se leem em linha reta atravessam a gente em camadas. Há nele uma mistura de memória, literatura, política, música e mar, tudo costurado por essa delicadeza de quem observa o mundo com um olhar ao mesmo tempo cansado e ainda encantado.
Gostei muito desse complemento do texto como “vento no mar” e como “curta em preto e branco”. Ele traduz bem essa sensação de algo simples na forma, mas profundo no efeito. E quando você traz Graciliano, Antônio Cândido, Caetano… você não cita nomes: você convoca presenças. São vozes que ampliam o sentido do que está sendo dito, como se a escrita virasse um lugar de encontro entre tempos, lutas e afetos.
Há também uma ternura silenciosa nesse pedido “não me soltes, não me percas” que ressoa para além da pessoa a quem foi dirigido. Parece um apelo à própria vida, à lucidez, à sensibilidade que insiste em não endurecer.
E esse final, com a luz entrando pela janela e o “canto de aurora”, fecha o texto como um suspiro de esperança: discreto, sem alarde, mas real.
Obrigada por partilhar esse pedaço de vida tão cheio de camadas, música e mar por dentro.
Amei!
Com carinho
Nanda
É muito gratificante sabermos que a nossa presença é apreciada.
ResponderExcluirBeijinhos, amigo José Carlos! Tudo de bom!
Olá, José Carlos, li com atenção sua crônica e me prendi na parte que fala sobre o nosso Graciliano Ramos, escritor
ResponderExcluirque admiro pelo texto enxuto e direto, como vemos nos seus romances, escritos como quem esculpi o mármore: Vidas Secas, São Bernardo, Angústia entre outros, que enriquece a literatura brasileira.
Sua crônica vai mais além, com inteligência e criatividade, mas, Graciliano Ramos preenche quaisquer lacunas.
Parabéns pela bela crônica.
Um feliz domingo e ótima semana.
Beijo, querido amigo.
Amigo Eros, boa noite de domingo!
ResponderExcluir"O texto, dizia eu, trazia coisas bonitas para esquecer os dias longos no deserto; "
Assim devemos fazer a fim de clarear os dias sombrios.
Muito bonito seu pensamento.
"Obrigado. Obrigado, por ser e estar. Não me soltes. Não me percas”.
Tão lindo, meu Deus!
Um pedido irrecusável.
Tenha dias novos abençoados!
Abraços fraternos
Meu querido amigo Eros, ops 😬! José Carlos!
ResponderExcluirVim te reler e matar a saudade.🤗
Teu texto caminha entre a memória, a literatura e o afeto como quem atravessa uma ponte feita de imagens. Há uma musicalidade suave nas palavras, um ritmo de mar, de vento e de luz entrando pela janela de dentro. Lê-se devagar, porque ele pede pausa pede contemplação. Por isso comento outra vez.
A referência a Graciliano Ramos surge como âncora de densidade humana e social, lembrando que a beleza da escrita também carrega compromisso, dor e resistência. E esse contraste com a delicadeza dos “fotogramas” cria uma tensão bonita entre o real duro e o sonho possível.
No final, essa luz que entra e inaugura o novo ano não é apenas cenário é símbolo de recomeço, de esperança que insiste. Teu texto não narra, ele sugere. Não explica, ele convida. E isso é literatura viva.🙌🏻
E eu? A d o r o 😘
Nanda
OLA JC
ResponderExcluirUm convite a uma bela escrita com um som maravilhoso, Confesso que viajei na musica e fui parar em outros carnavais, ☻☺
Que o dia seja leve.
beijo