sábado, 17 de janeiro de 2026

Dos bilhetes umectantes II

 


Um pedaço de vida. Talvez uma parte, a que inventamos para não ver o mundo passar; esta, eu posso soprá-la no seu ouvido como um vento no mar. 

Pois. Ainda admirava uma estampa de Viña del Mar, na véspera do Ano Novo, quando a galega me escreveu um texto lúcido, simétrico, curto, que me fez esquecer trapézios, redes e lonas da minha juventude. Sem enigmas. 

O texto, uma voz que tange, me fez pensar, quase ridículo, em fotogramas. Estava tão enxuto, penetrando a folha de papel, que me levou ao velho Graciliano, o ex-prefeito, entre outras coisas, de Palmeira dos Índios, aquele que deu uma certa dor de cabeça na política brasileira. Aos milicos também. Revejo a fonte do que teria sido seu erro: ele queria que pobre e preto tivessem acesso à escola pública. Acabou preso.  

Um soberbo escritor disse Antonio Cândido. 

    O texto, dizia eu, trazia coisas bonitas para esquecer os dias longos no deserto; é um curta em preto e branco, pisca um olho para minha sombra e faz agarrar-me a uma rocha para elucubrar sonhos míticos.

Ao olhar cada fotograma contra a luz, penso na história que o texto revela entre dois oceanos e nos olhos que os desnudaram.

Mas não há fotogramas; é mudez quando tudo são palavras; mescla de interlúdios e sonatas. E faço de conta de que tudo beira a orla do mar. Ou que o texto sugere. E penso em Caetano Veloso, o de Chuva, suor e cerveja, no sol que nele brilha e no que a galega dos Andes chilenos acentua: “Obrigado. Obrigado, por ser e estar. Não me soltes. Não me percas”. 

Não penso em camuflagem depois que esta luz entra pela janela da sala e sorrio com este canto de aurora no rio deste novo Ano Novo. 

 

(José Carlos Sant Anna,

Reeditado)

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