sábado, 3 de janeiro de 2026

Do teu cântaro

 


Em meio
a um tormentoso frio
e em engasgada ânsia, 
ela diz
"és de mim que nasces",
imberbe,
vens mais perto, vens,
e beija-me, e beija-me,
e suplica-me no teu silêncio
e no sorriso que leva o brilho
aos teus olhos. 
 
E toca-me,
e beija-me,
e toma a minha caneta
em suas mãos,
massageando-a delicadamente
à beira de extravasar
o precioso líquido
enquanto as minhas mãos 
se expande pelo teu corpo,
onde me perco, onde me acho,
desenhando sílabas
que se enroscam vorazes,
impelindo-me
para dentro da tua mancha branca
quando sangram
às margens do teu cântaro
outras sílabas e palavras e suspiros.
E transpiro. E saboreio o canto, o ritmo,
a musicalidade no teu corpo,
do teu corpo, pelo meu corpo.
 
Trêfegas,
volto a desenhá-las
na página em fogo mais brando
e antevejo o longo fio 
costurando 
a face ainda oculta do poema 
que revela seus dentes 
ao se fazer e se refazer em minha medula 
e no desejo que me impele à salivação 
no vagar e nos afagos.
 
(José Carlos Sant Anna)
dezembro, 2025.
 

15 comentários:

  1. Querido Eros,

    Um mergulho intenso no território onde escrita e desejo se confundem. A caneta aqui deixa de ser instrumento e vira corpo, pulsa, transpira, cria e o poema nasce exatamente dessa fricção entre palavra e carne.

    Há algo de muito visceral e, ao mesmo tempo, artesanal: sílabas costuradas, ritmo sentido na pele, o poema se fazendo e se refazendo como organismo vivo. Não é apenas erotismo é processo criativo exposto, sem pudor, mas com linguagem.

    Um texto que provoca, inquieta e revela o quanto escrever também pode ser um ato de entrega.

    Abraço
    Nanda

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  2. Olá, amigo José Carlos, o que dizer de um poema tão
    bem construído, que nos dá a impressão de que tende
    para um lado, mas, na realidade fica a intenção e o poema
    escrito na folha branca, com a tinta que brota da caneta do poeta.
    Uma poesia para mais de uma leitura!
    Aplausos, poeta!
    Votos de um bom 2026, com saúde e paz.
    Grande abraço.

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  3. Amigo José Carlos, feliz 2026!
    Quando o coração pulsa, as palavras brotam sem embargo do coração poético.
    Tenha dias abençoados e felizes!
    Abraços fraternos de paz

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  4. Que "o canto, o ritmo, a musicalidade" se façam presença ao longo do Novo Ano!
    Feliz 2026!

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  5. Quando o poema é assim bonito, palavras para quê ?
    Só deixar o abraço, agradecer a honra de tê-lo comigo mais um ano. E pedir que faça 'chover a cântaros' ...
    Beijinhos, Sant Anna

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  6. LINDÍSSIMO!

    Que esse ano que se inicia
    Seja transbordante de muita paz, amor e saúde.
    Para mim, para você, para nossas famílias.
    Que haja harmonia, paciência e sabedoria.
    Que a fé nos impulsione a buscar dias melhores.
    E que jamais venhamos a duvidar que existe um plano maior e melhor para nós.

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  7. Sensacional. Palavras, sílabas, desejo, tesão, página, caneta...tudo misturado num mar de construções simbólicas e talvez dúbias.

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  8. boa tarde JC
    O poema mergulha-nos numa intensa fusão entre corpo, palavra e criação poética, onde o desejo se transforma em escrita e a escrita se faz pulsação viva.
    Com imagens sensoriais fortes e linguagem profundamente evocativa, o autor conduz-nos pelo ato de criar como experiência carnal e espiritual, revelando a poesia como território de entrega, nascimento e reinvenção constante.
    Boa semana com saúde e Poesia
    :)

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  9. Amigo José Carlos
    Saúda este ano de 2026 com um poema intenso.
    Vai buscar ao âmago da alma e do corpo essa força
    anímica que faz viver e olhar à volta com muito afã,
    à procura da fonte ou do cântaro que vai à fonte.
    Despejando tudo o que há de emoções e quereres
    numa dança de música ritmada e profunda, eis o
    dom perene da vida.
    Demorei a chegar, mas cheguei. Daqui lhe envio gratos
    votos de um ano de muita inspiração.
    Beijinhos
    Olinda

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  10. Que texto intenso saiu dessa caneta para o papel. Um texto onde se confunde a escrita com a vida e com o amor, onde nos deixa a pensar como é belo ter emoções assim feitas de palavras que parecem música. Adorei.
    Que o ano 2026 seja um ano de paz no mundo e muita saúde para si e para a sua família
    Um beijo.

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  11. Boa noite, li devorando seu poema e depois
    voltei para ler as gentilezas da vida.
    Feliz ano novo, Muita saúde e paz.
    beijos

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  12. "Mas bah..." querido amigo, é isso que o gaúcho diz quando é lindo demais! Quando algo é cheio de sentimentos. Quando não precisa palavras, estão todas elas nessa gíria!
    Aplaudo daqui!
    Um ótimo fim de semana, muita paz e muitas criações poéticas!
    Beijo.

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  13. En tu medida y a tu medida brotan estos versos, fluyen las palabras y te atrapan
    magnificos como siempre Jose Carlos
    Que tengas un precioso año
    Un abrazo

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  14. Olá, amigo José Carlos, passo por este importante espaço,
    para desejar ao nobre amigo, um ótimo final de semana, com muita saúde e muita paz.
    Voltarei na próxima postagem, com muita satisfação.
    Grande abraço!

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  15. Leio este poema com um misto de vertigem e ternura, como quem toca algo vivo. Há nele uma sensualidade que não se apressa, que nasce da palavra antes de escorrer para o corpo — e talvez por isso seja tão intensa. Sinto a escrita como um rito íntimo, em que o desejo e a criação se confundem, onde a caneta deixa de ser instrumento e passa a ser extensão do sentir.

    Gosto especialmente dessa fusão entre o fazer poético e o arrebatamento físico: as sílabas respiram, suam, sangram e gemem junto com quem as escreve. Nada é gratuito; tudo pulsa com consciência estética e entrega. O poema se constrói no toque, no ritmo, no silêncio que suplica — e isso o torna profundamente humano.

    É um texto que me atravessa devagar, que se faz e se refaz em camadas, como o próprio desejo: ora brando, ora voraz, sempre verdadeiro. Ao final, fico com a sensação de ter assistido ao nascimento do poema por dentro — no lugar exato onde palavra e carne se reconhecem.

    ABRAÇOS

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Clamor

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