quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Versos de Natal

 



Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos, 1940


Um Natal de muita paz e muitas alegrias para todos os meus amigos. 

Recebam meus abraços, fraternos e festivos.

José Carlos Sant Anna


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Um curta no Amanhã


 Imagem Pixabay

Outra vez.
Escancarei os olhos.
Na ponta dos sapatos uma mancha.
Se eu pudesse vê-la sem os óculos,
não saberia que era ketchup.
Estou sem teto. Já lhe disse?
Teresa não me deixou entrar em casa.
É incômoda a notícia de não 
poder entrar em casa. Saberei contorná-la?
A mala é pequena, mas tem muitas
viagens nas costas.
Nela, não cabem as estranhezas em riste
a aumentar a dor na crise.
Incomodado eu ficaria
se não coubessem meus livros,
imponderáveis e leves. São poucos,
o que não me espanta, reflito.
Por saber-me somente lhes digo 
Não é primeira vez que fico sem teto.
E não tenho medo, mas o bolso
está sem um puto para o olho da rua.
E se tenho a alma em chamas
o que faço para salvar 
a poesia desse amor?

José Carlos Sant Anna,
11 de novembro de 2025

domingo, 7 de dezembro de 2025

O rumor das pantufas

 



É claro. Zeloso, muito zeloso, abro o guarda-chuva para uma sem noite nuvens. Um céu de brigadeiro. E me contemplo. Absurdamente zeloso. É claro, onde já se viu, estapafúrdio e noturno, numa cidade tão quente como esta em que vivemos abrir-se um guarda-chuva à noite? Qualquer cidadão que traga a cabeça no lugar e os pés no chão achará absurdo esse gesto cômico ao se deparar com a cabeça coberta por uma guarda-chuva à noite. Por cima da cabeça, é claro, não poderia ser de outra maneira seu uso. O gesto é maquinal uma vez que a ponte, antes, era um elo, uma ligação, não seria exagero dizer íntimo, do curvar-se paulatino entre os protagonistas desta história: eu e ela. Não há dúvida: agora Inês é morta e descansa em paz ao lado de Pedro, não é mesmo? Ainda que a ponte esteja interditada, um cappuccino a dois viria a calhar. Parcialmente interditada, mas não é tudo, você há de convir, leitor. Ela, a protagonista, e não Inês, proibiu quaisquer passos em sua direção feitos por mim. Suspeito é o que sou, e não um delituoso. É só uma suspeita. Nada mais. Ponto final. E se eu lhe mostrasse minhas pantufas, são as mesmas que revelam o tamanho da minha preguiça, pois me recuso a pensar em outra coisa, salvo a interdição. Creia em mim. Creia. Como me recuso a escrever qualquer coisa para salvar as aparências, ouso dizer-lhe: o que ela ama, são as minhas pantufas. E não me incomodo com o fato de não compreender tudo que ouço sobre a interdição, o importante não são as rosas que eu deixava na sua varanda todos os dias, são as pantufas, são elas que importam. Ela me queria todos os dias e às pantufas. Sem as pantufas, ela não me vê completo, arrota sem cerimônia em gestos e palavras. Pense em alguém que, sem culpas e remorsos, se lambuzasse de pantufas. É ela. Quantas mulheres tão próximas viram minhas pantufas e se entregaram às fantasias? Quantas vezes pediram que as deixasse em suas mãos. Falavam da sua maciez, tomavam-nas nas mãos como um brinquedo. Mas ela, a que se acreditava dona, não queria que ninguém as visse, que as tocasse. Não queria vê-las usurpadas. Há algum mal vê-las estiradas ao sol? Me equilibro nas histórias das pantufas, recubro-me de razão quando me descubro um skatista na hora de escrever. Queria mais? Queria mais? Pois dou-lhe o resto. Olho para os lados, a noite continua quente e o guarda-chuva permanece aberto, um teto inútil para ideias vazias. Decido, então, que o skatista precisa descer do corrimão. Tiro as pantufas. Deixo-as ali, exatamente no início da ponte interditada, alinhadas e macias, esperando pelo próximo transeunte ou por ela, caso decida violar a própria proibição. Sigo descalço pela calçada quente. Afinal, leitor, sem as pantufas eu posso até não ser completo, mas pelo menos já não preciso carregar o peso do que ela amava em mim. 

José Carlos Sant Anna,
12 de outubro de 2025.








domingo, 30 de novembro de 2025

Meada

 

Imagem Pixabay

A luz. 

Lá, sob a porta,

a perder-se de si 

e, ao fundo, 

a foto em preto e branco

a perder-se de nós


e desaproximam-se no vácuo

as formas da voz. 


E se movem.

 

Daqui eu vejo a imagem imprecisa.

 

O que vês, meu bem?

O que soa estranho?

 

Oh, Odete, que falta faz o que 

não se aprende na escola 


ou nas dobras da lama ou do limo

ou no avesso do instante 


Foi por isso que você voltou? 

Tomo o seu tempo? 


Não me deixe, 

por favor!

 

Tomar o meu tempo?

 

São poucas as linhas da meada


São urdiduras nas palavras medidas

no arcabouço ou no calabouço

a ferir-me desde dentro.

 

José Carlos Sant Anna,

28 de outubro de 2025


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Fiat lux

 


Entre tantos,

perdem-se olhares

em morros violentados

por armas e drogas

enquanto as ondas do mar

se encontram nos vítreos

dos meus olhos,

sinal de que

se novos meus olhos não estão,

parecem ressignificados

para outras viagens

é a única certeza.

 

José Carlos Sant Anna

6/11/2025






segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O grito

 


Cintila a tarde em gozo,

a espuma transborda  

pelos vãos das portas,

transpassa o silêncio,

veste uma página 

em branco 

e se põe a dançar no pátio 

esgarçando a tule

que a veste 

com as pontas dos dedos.

E canta o malho, 

e resfolega o bandoneon 

e transborda a taça 

em macios borbotões. 

Lento o rio oculto da seiva 

flui depois de um grito 

prolongado.

 

José Carlos Sant Anna
    11/outubro/2025.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

O que vão dizer?

 


Para Alís,


– ¿Cómo supiste que uso lápiz labial rojo?

Intrigado, Carlos não dizia nada. Apenas observava a boca. Sedento. Ela, desprovida de troncos, e membros, e cabeça, como não? havia a boca no meio da sala, "só, somente só, boca, boca, boquinha, assim vou lhe chamar", sedenta também. É o que parecia.

Incandescente, a pergunta da boca reverberava entre as paredes do apartamento. A única que a boca fez antes de passear pelos cômodos do ap.. Ela se bastava é o que parecia dizer enquanto andava de um lado a outro com desenvoltura.

Carlos, ainda intrigado, lhe estendeu uma taça de vinho. A boca declinou. Onde o rosto se completava? Olhos? Nariz? Cabeça? E os membros? Transparentes?

Carlos teve impulso de encostar-lhe a taça de vinho que degustava para entreabrir seus lábios, forçando-a a aceitá-lo. Não o fez. Mas lhe perguntou, com desvelo, porque achava a cena inusitada, e porque não queria também parecer desrespeitoso com a boca:

– Então, por que você não me beija?

Não houve resposta. Carlos entrou no banheiro, a boca o acompanhou. Puxou o zíper, a boca virou para o outro lado, mas não saiu do banheiro. Aguardou que ele puxasse a descarga. Carlos teve um impulso: saiu sem ensaboar as mãos. E a boca não lhe disse: "volte, onde fica a higiene, lave as mãos". Ele foi à cozinha e sentiu as pegadas da boca; (uma boca que tem uma boa pegada como esta, assusta, não é mesmo? - se perguntou). Entrou no quarto, no gabinete de trabalho, e a boca, decidida, lhe seguia os passos.

Carlos arriscou:

– Acho que você tem razão boca, as pessoas devem dar um tempo para se conhecerem. Se você soubesse o quanto eu queria avançar o sinal, sem saber o que ocorreria. 

A boca fingiu não entender que era com ela que Carlos falava. Mas entendia tudo. Sua expressão labial não mudava, e a boca tinha o senso incrível de direção, pois não perdia Carlos do seu alcance. Conheceu todo seu espaço, seu habitat, sua morada, porque não saía de perto dele. Assim lhe parecia: aquela boca tinha olhos.

Aquele rubro se mantinha inalterado, aqueles lábios pediam para serem tocados, mordidos. Era tudo que ela queria, ele supunha. Seria a vergonha que não a deixaria que ela lhe pedisse um beijo, como parecia desejar?

Por sua vez, Carlos sabia que uma lambida naqueles lábios vermelhos despertaria a boca para cumprir as promessas que se lia na transparência de cada “olhar”. 

E já passava da meia-noite e a boca-cinderela não se despedia. Instigado como estava, Carlos resolveu deitar-se. Apagou a luz e a boca se deitou ao seu lado.

Amanheceu. O invisível que existia na boca persiste e Carlos desanda por descaminhos a repetir: vão dizer que a boca não existe.  

 

(José Carlos Sant Anna)


Trilogia

Entre a boca e o vinho,  a eternidade dura o espaço de um sopro. Herberto Helder I. A ESPERA A MADEIRA DA MESA RANGE . É o calor que a s...