domingo, 16 de agosto de 2026

A poesia de Graça (Pires)

 

Acervo pessoal (Áustria)

            
                À poeta Graça Pires,
                em admiração pela sua entrega à pureza da palavra.
               "somos feitos do mesmo tecido 
                de que são feitos os sonhos"
Com dedos débeis escrevo o teu nome
pelas ruas de Lisboa e do mundo,
onde o silêncio se esconde.
Sob a reverência ao sol,
de olhos movediços,
pergunto: basta o querer?
Respiro a tua arte.
Bebo os teus poemas, sílaba a sílaba,
na casa viva das palavras.
Tua voz nos toca no imprevisto
e repete:
"somos feitos de sonho, espírito e carne".
As águas da realidade que escuto
são o testemunho comum da aldeia global.
Tu és a poeta que transforma,
purifica a língua e entrega-a ao mundo.

                José Carlos Sant Anna, 
                                agosto/2026.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

O menino viu tudo

 


Há dias em que a cidade cinzenta e o vento frio nos obrigam a caminhar de cabeça baixa. Mas, às vezes, a rotina é interrompida por uma presença que desafia as estações — alguém que carrega o mar no corpo e o sol no olhar. A crônica a seguir é sobre esses raros instantes de beleza absoluta que lavam a alma de quem se permite parar e observar.


Outono

A verdade é que muitos viram a cena com alguma estranheza. Talvez porque já fosse outono. Aliás, no outono é assim mesmo: os dias são mais curtos e, no final da tarde, sempre esfria um pouco. Então, o que houve?

Aquele menino, ele não foi o único a ouvir os seus passos no outono — passos que sussurravam um ritmo próprio, como o estalar de folhas secas sob uma marcha decidida. É que o pássaro do verão passado passeava nos olhos da moça que caminhava pelas avenidas centrais da cidade. Tão bonitos aqueles olhos! Tão bonitos! Ela não se resguardava dos ventos outonais que teciam um cântico de aconchego em seu corpo, levando-a pela mão com um largo sorriso. Pareciam o seu dono, mas o menino sabia que, pelo seu andar, ela não tinha dono. Era insubmissa, ele já sabia.

Mulher bonita, uma diva com um vestido branco e sapatos combinando com as suas vestes, que deixava homens — grandes e fortes por uma vida inteira — carentes de aurora ou de lua cheia, como nunca se imaginaram. E como se o pássaro não bastasse, ela ainda carregava, como uma prenda, o cheiro do mar em seu corpo, exalando um aroma de maresia à roda do mundo.

Aquela festa duraria a tarde inteira? E lá vai o menino atrás da moça. Ele não era o único na admiração cega à sua beleza, que claramente todos enxergavam. Ela lavava os corações dos homens, que entortavam a cabeça para vê-la passar com o pássaro de verão nos olhos — tanto nos dela quanto nos de todos. Tão bonitos aqueles olhos.

Transparente, o céu se derramava sobre os prédios das avenidas por onde ela passava, como dentro de um envelope branco, envolta em rosas, anjos, anéis e cirandas, com a certeza de que o mundo — de norte a sul, de leste a oeste, de morro a mar — nunca se acabaria na última ceia.

A todos que não a viram, contarei.

— Cada um para falar na sua vez, cada qual em seu lugar; nenhuma ponte se estende em vão — disse o menino, chamando os que testemunharam a epifania, meninos e homens.

José Carlos Sant Anna,
Extraído dos meus alfarrábios

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O poema mais claro

 

Imagem Pinterest

Perder-se é também um caminho.
Clarice Lispector

    Pus as palavras ao lado: as cinzentas de um lado e as claras do outro, escrevendo-as com os dedos enquanto a carne pulsava. Tinta negra no seu dorso claro, o que fazia a alegria de Berta — a professora que turvou meus olhos com lança-perfume e depois me tomou nos braços, escavando o meu corpo como se fosse uma página aberta da minha própria escrita.

    Um corpo a corpo fluido que me fazia esquecer a queimação nos olhos e me entregava à outra — àquela gramática em que ela me iniciava. O quarto girava na cadência dessa gramática viva. Eu estava ali, sem entender o abismo das mãos em busca do corpo dela e dos dentes das letras na sua boca de mil bocas, uma sede ardente me engolindo, despenhando-me no abismo que ela mesma escrevera.

    Ali embaixo, no escuro da semântica de Berta, percebi que minhas mãos já não sabiam separar as palavras claras das cinzentas. Ela havia misturado todas as tintas. Eu já não tinha dedos para escrever; pertencia agora à margem dos seus cadernos, à volúpia dos seus abraços, ao ponto final que ela impunha com os sussurros soprados na minha nuca. Eu me tornara o seu poema mais claro, aquele que ela declamava em silêncio enquanto me devorava com a precisão de quem corrige um erro. 

José Carlos Sant Anna, 
Extraído dos meus alfarrábios


quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Condomínio das Letras

Inspirado no Literários* do blog As crônicas de Edu
 

Por causa das chuvas torrenciais em Salvador, decidi descobrir se também chovia no Condomínio das Letras, do outro lado da vida. Então, peguei meu telefone móvel e fiz uma chamada de vídeo para Machado de Assis. Sorumbático, ele estava de braços cruzados na varanda e exclamou com olhar distante:

— Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis, mas o meu machado sumiu! Não o encontro por quaisquer outros contos de réis![1]

Do jardim vizinho, Guimarães Rosa surgiu de trás de um arbusto, ajeitando a gravata-borboleta e, com os olhos cravados no infinito, destilou sua sabedoria:

— Viver é muito perigoso, seu Assis. Veja: o senhor procure a ferramenta, mas cuidado para não cortar as minhas rosas. O diabo é que gosta de gume afiado.[2]

Antes que Machado respondesse, um barulho ecoou pela calçada. Era Manuel Bandeira, batendo de porta em porta com o entusiasmo de um mascate. Ele segurava um tecido verde e amarelo:

— Olha a bandeira! Quem vai querer a bandeira do Brasil? A Copa está chegando e eu só quero a minha Pasárgada futebolística! Lá sou amigo do rei, mas aqui preciso vender pano![3]

Machado, já sem paciência, apontou para a casa ao lado, de onde saía fumaça de charuto:

— Vá bater lá no Jorge Amado, Manuel. Ninguém gosta mais de uma festa e do povo do que ele. Aquele ali vive cercado de capitães da areia. Capaz de comprar seu estoque inteiro.

Bonachão, Jorge[4] abriu a janela com um sorriso largo, segurando um prato de acarajé:

— Alguém falou meu nome? Entrem! O machado do Assis está aqui em casa. Usei para abrir um coco!

E assim, entre uma xícara de café, um gole de cachaça e um acarajé, os quatro decidiram esquecer a confusão e fundar uma academia de bem-aventurança. Foram felizes, bem-vestidos e imortais para sempre. 

José Carlos Sant Anna,

10 de junho de 2026


 

 

*Como um nordestino-raiz, sou bom de rede, assim, além de ter aceitado em tom de galhofa o desafio de Edu, pesquei a imagem do blog dele e trago alguns detalhes sobre as obras citadas.



[1] Trata-se do drama de Brás Cubas. Machado de Assis começa com a famosa reflexão: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis", frase inicial do célebre capítulo XV de Memórias Póstumas de Brás Cubas. O machado que ele procura é a sua própria pena afiada de cronista!

[2] O tom cauteloso de Guimarães Rosa traz uma das máximas mais icônicas de Grande Sertão: Veredas: "Viver é muito perigoso... o diabo é que gosta de gume afiado". É o que pode ser chamado de “sabedoria do sertão”. A gravata-borboleta era a marca registrada do autor.

[3] Manuel Bandeira traz a leveza de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada, o "tecido verde e amarelo" de sua poesia cívica, misturado à realidade bem brasileira do futebol e da crônica diária. É o mascate da poesia.

[4] Jorge Amado não poderia estar em outro lugar que não na Bahia, fumando seu charuto, cercado pelo povo e pelos Capitães da Areia (1937), oferecendo um autêntico acarajé aos colegas imortais. É a hospitalidade baiana cantada em prosa e verso.




sábado, 23 de maio de 2026

Arroz doce

 



    Ela ainda sentia o lume do arroz-doce. Maricota ficou horas deitada com seu cheiro de hortelã espalhado, o olhar perdido ora no lustre do quarto, ora no vão da janela, sem querer que o domingo acabasse. Sentia-se feliz por ter ficado, por alguns momentos, com a palavra sufocada, até que ambos — o marido e o domingo — pregassem ao seu lado. Isso aconteceu logo após ela ter dito seguidas vezes ao seu ouvido: “toma-te”, naquele encontro inopinado no quarto do casal, o que fazia luas que não acontecia!

    “Toma-te”. Por quase um nada, o domingo se esvaíra entre os monossílabos trocados, as saladas do almoço e até mesmo um cafezinho, sem que o verbo fizesse ponto na esquina. Foi o que aconteceu quando o pássaro trêmulo da língua voou na casa de dona Maricota (por favor, não me digam: “que nome estranho esse!”), depois que ela trancou a porta e conferiu a tranca três vezes, como sempre fazia em suas fúteis manias do dia a dia. Em seguida, puxou a cadeira e se sentou, pernas estiradas, para sorver o café tirado na hora.

    Com as vastidões das lembranças bem vivas na cabeça, acabou, sem querer, entornando-o na sua camisola de dormir. Ficou muito zangada porque o marido, que não lhe despregava os olhos, tirou uma foto do instante e, em tom de galhofa, ameaçou colocar nas vitrines das redes aquele registro pessoal, íntimo. Ela tinha puxado a camisola acima das coxas para não se queimar.

    Ela amuou, fez beicinho com a camisola manchada e com as brincadeiras do marido, mesmo sabendo que ele jamais divulgaria sua foto pelas redes sociais; ele a conhecia bem e sabia que ela não ficaria satisfeita. Ele carregaria água no cesto para não aborrecê-la. "Se preciso fosse, meu amor, a chama no meu peito ainda queima, nada foi em vão..." — alô, alô, Gonzaguinha, cantando aí no céu? Me perdoe, Waltinho Queiroz, pelo uso do seu modelo!

    Esse contratempo era o pretexto para suas dissimulações, sem que ela, assustada, de repente suspeitasse. Assim, para deixá-la mais arfante, de boca aberta — pois fazia parte do jogo —, ele se ajoelhou e beijou os dedos dos seus pés até que ficassem molhados de saliva. Ela dizia não gostar dessas coisas; para ela, era pirraça, como ele fazia todas as manhãs.

    Quando ele abria os olhos, ela já estava acordada fazia um bom tempo. Então, ele se virava, encostava-se e dizia: “Essa poupança me faz dormir de novo. Chegue para cá; antes, vou dar bombadas, de leve, elas vão lhe fazer bem”. E fazia movimentos circulares, esfregando meio lá, meio cá — se me entendem —, aquela coisa entre as pernas. Fazia isso ora lenta, ora freneticamente, e perguntava sempre sorrindo: "Me diga, você prefere assim?". Interrompia os movimentos esperando sua reação e olhava para ela, sorrindo. E ela sorria também. Ele recomeçava com um vaivém igualmente frenético e perguntava: “Ou assim?”, dando-lhe novas bombadas. Tentava beijá-la com a boca suja, mas ela sorria sem graça, afastando-o e dizendo-lhe, enquanto apontava para o banheiro: “Vai lá, escove os dentes e volte, que eu deixo, seu porquinho”.

    Assim começava, só de pirraça, a sessão matinal do "lambe-lambe", como ela a chamava. Pois, como eu dizia, com muita força de vontade ela arrancou os pés das mãos dele. Inutilmente. A salivação já tinha alcançado outro patamar. Não era pirraça, ela já admitia. Subia uma comichão; ela disse depois que não estava morta e, por quase nada, ligeira, desprendeu os cabelos. Como estava abstêmia — pois fazia tempo que não sabia o que era aquilo para valer —, entregou-se. Sentia que era alguém com a obrigação de renascer, de respirar de novo a frescura do prazer, sentir a carne e as veias que latejavam. Sentia a pólvora queimando suas entranhas. Enquanto um pé da sandália ficava no corredor da casa, sentia um tremor nas mãos ao desembaraçar-se das vestes como se fosse a protagonista de um filme de amor com final feliz.

    Depois do lufa-lufa, arfando, ele caiu para o lado, prostrado — sinal de que a coisa tinha sido boa — e dormiu rapidamente. Ainda degustando aquele gozo dominical, ela parecia ter esquecido o "nunca aos domingos". Afinal, dessa vez, a chapa esquentou na hora da Ave-Maria! 

José Carlos Sant Anna,
reeditado

 


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Metamorfose

 

            Foto: arquivo pessoal

Chove.

São gotas inescapáveis na janela 

que se dissolvem em espelho de vidro 

onde o ontem e o agora são inescapáveis também.

 

E o horizonte se dobra sobre a calçada,

e as janelas vizinhas se tornam olhos lacrimejantes, 

e a rua não é mais caminho, é apenas fluxo,

e o asfalto se rende à vocação de rio

 

enquanto eu mantenho meus rascunhos 

longe do hálito de vidro para que 

não se tornem um indesejável borrão

ou não virem espuma 

nas gotas em que a cidade se dilui.

 

Já não sei mais onde termina 

o vidro e começa o eu.

 

                José Carlos Sant Anna,

                15 de maio de 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Filosofia felina

 

Imagem Pixabay

Depois de ouvir e relaxar com Wagner, conhecido por sua intensidade, por sua paixão e por sua grandiosidade, Imaculada, minha estimada gata, em um estado de espírito elevado, quase romântico, despojado, decidiu deixar-se amar ao defrontar-se com um pássaro cantor pousado na janela do alpendre, e o fez porque foi tocada pela cena que parecia dizer-lhe mais sobre o que flui na alma, pois para sustentar o peso do próprio voo, elaborou a minha elegante gata, é preciso o pouso para que o peito, enfim, se acalme. 

José Carlos Sant Anna,

8/maio/2026


Trilogia

Entre a boca e o vinho,  a eternidade dura o espaço de um sopro. Herberto Helder I. A ESPERA A MADEIRA DA MESA RANGE . É o calor que a s...