sábado, 3 de janeiro de 2026

Do teu cântaro

 


Em meio
a um tormentoso frio
e em engasgada ânsia, 
ela diz
"és de mim que nasces",
imberbe,
vens mais perto, vens,
e beija-me, e beija-me,
e suplica-me no teu silêncio
e no sorriso que leva o brilho
aos teus olhos. 
 
E toca-me,
e beija-me,
e toma a minha caneta
em suas mãos,
massageando-a delicadamente
à beira de extravasar
o precioso líquido
enquanto as minhas mãos 
se expande pelo teu corpo,
onde me perco, onde me acho,
desenhando sílabas
que se enroscam vorazes,
impelindo-me
para dentro da tua mancha branca
quando sangram
às margens do teu cântaro
outras sílabas e palavras e suspiros.
E transpiro. E saboreio o canto, o ritmo,
a musicalidade no teu corpo,
do teu corpo, pelo meu corpo.
 
Trêfegas,
volto a desenhá-las
na página em fogo mais brando
e antevejo o longo fio 
costurando 
a face ainda oculta do poema 
que revela seus dentes 
ao se fazer e se refazer em minha medula 
e no desejo que me impele à salivação 
no vagar e nos afagos.
 
(José Carlos Sant Anna)
dezembro, 2025.
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Versos de Natal

 



Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos, 1940


Um Natal de muita paz e muitas alegrias para todos os meus amigos. 

Recebam meus abraços, fraternos e festivos.

José Carlos Sant Anna


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Um curta no Amanhã


 Imagem Pixabay

Outra vez.
Escancarei os olhos.
Na ponta dos sapatos uma mancha.
Se eu pudesse vê-la sem os óculos,
não saberia que era ketchup.
Estou sem teto. Já lhe disse?
Teresa não me deixou entrar em casa.
É incômoda a notícia de não 
poder entrar em casa. Saberei contorná-la?
A mala é pequena, mas tem muitas
viagens nas costas.
Nela, não cabem as estranhezas em riste
a aumentar a dor na crise.
Incomodado eu ficaria
se não coubessem meus livros,
imponderáveis e leves. São poucos,
o que não me espanta, reflito.
Por saber-me somente lhes digo 
Não é primeira vez que fico sem teto.
E não tenho medo, mas o bolso
está sem um puto para o olho da rua.
E se tenho a alma em chamas
o que faço para salvar 
a poesia desse amor?

José Carlos Sant Anna,
11 de novembro de 2025

domingo, 7 de dezembro de 2025

O rumor das pantufas

 



É claro. Zeloso, muito zeloso, abro o guarda-chuva para uma sem noite nuvens. Um céu de brigadeiro. E me contemplo. Absurdamente zeloso. É claro, onde já se viu, estapafúrdio e noturno, numa cidade tão quente como esta em que vivemos abrir-se um guarda-chuva à noite? Qualquer cidadão que traga a cabeça no lugar e os pés no chão achará absurdo esse gesto cômico ao se deparar com a cabeça coberta por uma guarda-chuva à noite. Por cima da cabeça, é claro, não poderia ser de outra maneira seu uso. O gesto é maquinal uma vez que a ponte, antes, era um elo, uma ligação, não seria exagero dizer íntimo, do curvar-se paulatino entre os protagonistas desta história: eu e ela. Não há dúvida: agora Inês é morta e descansa em paz ao lado de Pedro, não é mesmo? Ainda que a ponte esteja interditada, um cappuccino a dois viria a calhar. Parcialmente interditada, mas não é tudo, você há de convir, leitor. Ela, a protagonista, e não Inês, proibiu quaisquer passos em sua direção feitos por mim. Suspeito é o que sou, e não um delituoso. É só uma suspeita. Nada mais. Ponto final. E se eu lhe mostrasse minhas pantufas, são as mesmas que revelam o tamanho da minha preguiça, pois me recuso a pensar em outra coisa, salvo a interdição. Creia em mim. Creia. Como me recuso a escrever qualquer coisa para salvar as aparências, ouso dizer-lhe: o que ela ama, são as minhas pantufas. E não me incomodo com o fato de não compreender tudo que ouço sobre a interdição, o importante não são as rosas que eu deixava na sua varanda todos os dias, são as pantufas, são elas que importam. Ela me queria todos os dias e às pantufas. Sem as pantufas, ela não me vê completo, arrota sem cerimônia em gestos e palavras. Pense em alguém que, sem culpas e remorsos, se lambuzasse de pantufas. É ela. Quantas mulheres tão próximas viram minhas pantufas e se entregaram às fantasias? Quantas vezes pediram que as deixasse em suas mãos. Falavam da sua maciez, tomavam-nas nas mãos como um brinquedo. Mas ela, a que se acreditava dona, não queria que ninguém as visse, que as tocasse. Não queria vê-las usurpadas. Há algum mal vê-las estiradas ao sol? Me equilibro nas histórias das pantufas, recubro-me de razão quando me descubro um skatista na hora de escrever. Queria mais? Queria mais? Pois dou-lhe o resto. Olho para os lados, a noite continua quente e o guarda-chuva permanece aberto, um teto inútil para ideias vazias. Decido, então, que o skatista precisa descer do corrimão. Tiro as pantufas. Deixo-as ali, exatamente no início da ponte interditada, alinhadas e macias, esperando pelo próximo transeunte ou por ela, caso decida violar a própria proibição. Sigo descalço pela calçada quente. Afinal, leitor, sem as pantufas eu posso até não ser completo, mas pelo menos já não preciso carregar o peso do que ela amava em mim. 

José Carlos Sant Anna,
12 de outubro de 2025.








domingo, 30 de novembro de 2025

Meada

 

Imagem Pixabay

A luz. 

Lá, sob a porta,

a perder-se de si 

e, ao fundo, 

a foto em preto e branco

a perder-se de nós


e desaproximam-se no vácuo

as formas da voz. 


E se movem.

 

Daqui eu vejo a imagem imprecisa.

 

O que vês, meu bem?

O que soa estranho?

 

Oh, Odete, que falta faz o que 

não se aprende na escola 


ou nas dobras da lama ou do limo

ou no avesso do instante 


Foi por isso que você voltou? 

Tomo o seu tempo? 


Não me deixe, 

por favor!

 

Tomar o meu tempo?

 

São poucas as linhas da meada


São urdiduras nas palavras medidas

no arcabouço ou no calabouço

a ferir-me desde dentro.

 

José Carlos Sant Anna,

28 de outubro de 2025


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Fiat lux

 


Entre tantos,

perdem-se olhares

em morros violentados

por armas e drogas

enquanto as ondas do mar

se encontram nos vítreos

dos meus olhos,

sinal de que

se novos meus olhos não estão,

parecem ressignificados

para outras viagens

é a única certeza.

 

José Carlos Sant Anna

6/11/2025






segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O grito

 


Cintila a tarde em gozo,

a espuma transborda  

pelos vãos das portas,

transpassa o silêncio,

veste uma página 

em branco 

e se põe a dançar no pátio 

esgarçando a tule

que a veste 

com as pontas dos dedos.

E canta o malho, 

e resfolega o bandoneon 

e transborda a taça 

em macios borbotões. 

Lento o rio oculto da seiva 

flui depois de um grito 

prolongado.

 

José Carlos Sant Anna
    11/outubro/2025.

Notícia

  O blog estava com os comentários totalmente desativados.  Liberei o acesso às postagens, mas acabei esquecendo de liberar os comentários. ...