Querida,
Você
sabe o que acontece com as cores do arco-íris quando elas se desmancham nos
céus? Não? Então, pergunte aos beirais para que eles contem sobre o quieto
pranto saudoso que elas exalam quando se despem nos céus. Os beirais não
guardam segredos e podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não
apague a nitidez dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do
corvo que rasga a escuridão à tua frente.
Sim,
ainda vou à igreja da Penha, querida, mas esqueça que se esvai por entre os
dedos e escorre pelas mãos, além das palavras às quais renunciamos, o que ficou
trancado por lá, e a fome em que nos afundamos; guardemos os alentos das
primeiras horas deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me,
ainda que de passagem, pois, por mais que tente, os teus olhos não vão saber
recobrá-los. Tampouco a tua memória.
E
saibas também, sequioso, que as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom
timoneiro arrastando o peso do mundo; não, não encalho no raso, e os patos me
consolam quando os observo de algum telhado aberto nas asas do tempo. E guarda
teu riso de menina no clarim da alvorada.
Ah,
não me pergunte sobre a doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta,
por favor, ao sorrir para mim porque, instintiva, a presunção da minha
inocência reagirá a esse filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de
tudo, tudo, por favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E, sem alarde,
não se oponha. É só uma lufada de vento o que lhe digo. Sou o dono
circunstancial do meu silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro.
Esqueça
tudo do ano que passou, o retrovisor do uber, o vaivém das cortinas, a música
de Wagner, a estação da chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das
praças em que repassávamos os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o
horizonte turvo, as espumas de um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena
revirar os perdidos sonhos.
E,
por favor, não desplugue a tomada deste solo exato, pois ainda haverá tempo
para ler a portuguesinha que você recomendou e esmiuçar a sua poesia. Será
depois do caldo verde, antes que a luz da lua transpasse seus versos.
Por
favor, eu sei. É sobre a vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça.
As palavras não têm descanso em cada poema, como você o disse. São versos que
enlevam, alucinam, provocam e nos tornam seu escravo, tamanho o domínio da
língua e o vigor da sua poesia, quase o digo. Por favor, não desconsidere esta
observação: eu não quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me
peça que publique os meus alfarrábios também.
No
estágio atual, ou seja, no meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos
seus grandes lábios a dez mil pés de altura, na toalete do avião, sob o calor
dos teus suspiros, a qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor,
não me pergunte outra vez sobre o livro, pois, só por desfaçatez, vou confessar
que sou escravo do desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando meus dedos no teclado remontam o tempo do vivido.
Salvador, 28 de abril de 2026.
(José Carlos
Sant Anna)

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