terça-feira, 28 de abril de 2026

O céu pela vidraça

 


Querida,

Você sabe o que acontece com as cores do arco-íris quando elas se desmancham nos céus? Não? Então, pergunte aos beirais para que eles contem sobre o quieto pranto saudoso que elas exalam quando se despem nos céus. Os beirais não guardam segredos e podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não apague a nitidez dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do corvo que rasga a escuridão à tua frente.

Sim, ainda vou à igreja da Penha, querida, mas esqueça que se esvai por entre os dedos e escorre pelas mãos, além das palavras às quais renunciamos, o que ficou trancado por lá, e a fome em que nos afundamos; guardemos os alentos das primeiras horas deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me, ainda que de passagem, pois, por mais que tente, os teus olhos não vão saber recobrá-los. Tampouco a tua memória.

E saibas também, sequioso, que as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom timoneiro arrastando o peso do mundo; não, não encalho no raso, e os patos me consolam quando os observo de algum telhado aberto nas asas do tempo. E guarda teu riso de menina no clarim da alvorada.

Ah, não me pergunte sobre a doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta, por favor, ao sorrir para mim porque, instintiva, a presunção da minha inocência reagirá a esse filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de tudo, tudo, por favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E, sem alarde, não se oponha. É só uma lufada de vento o que lhe digo. Sou o dono circunstancial do meu silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro.

Esqueça tudo do ano que passou, o retrovisor do uber, o vaivém das cortinas, a música de Wagner, a estação da chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das praças em que repassávamos os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o horizonte turvo, as espumas de um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena revirar os perdidos sonhos.

E, por favor, não desplugue a tomada deste solo exato, pois ainda haverá tempo para ler a portuguesinha que você recomendou e esmiuçar a sua poesia. Será depois do caldo verde, antes que a luz da lua transpasse seus versos.

Por favor, eu sei. É sobre a vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça. As palavras não têm descanso em cada poema, como você o disse. São versos que enlevam, alucinam, provocam e nos tornam seu escravo, tamanho o domínio da língua e o vigor da sua poesia, quase o digo. Por favor, não desconsidere esta observação: eu não quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me peça que publique os meus alfarrábios também.

No estágio atual, ou seja, no meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos seus grandes lábios a dez mil pés de altura, na toalete do avião, sob o calor dos teus suspiros, a qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor, não me pergunte outra vez sobre o livro, pois, só por desfaçatez, vou confessar que sou escravo do desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando meus dedos no teclado remontam o tempo do vivido.

 

Salvador, 28 de abril de 2026.

(José Carlos Sant Anna)


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