Sejamos
graves em gestos que não devaneiem; ou sejamos vastos ad libitum
como se não houvesse mais nada além da alegria do olhar que entardece.
Mas
sempre há uma novidade.
O
gafanhoto parecia muito feliz. Ele não sabia que eu estava logo ali, na
poltrona da sala, a observar pela vidraça o que acontecia do lado de fora,
quando, por instinto, se afastou da nuvem que sobrevoava o prédio e pousou na
pequena horta da minha jardineira.
E
ficou imóvel. Parecia encoberto pelo véu da sua incerteza.
Ele
buscava reconhecer o admirável mundo novo à sua frente. Ao que parece, ele não
sente falta dos companheiros, os que pairavam acima do alcance do meu olhar.
E
apetece-me vê-lo agora se movendo lentamente (por enquanto me apetece) por entre minhas hortaliças. Sem
pudor.
Vagarosamente,
ele fareja com suas antenas o cheiro e sente o sabor de cada folha. E a sonoridade
da palavra apetece me apetece, parece vir do alto, lá das nuvens. Deixo-a no
céu da boca por alguns instantes. E depois digo em voz alta
"apetece-me", enchendo o ar com suas vogais e consoantes.
E
deixo-a fagueira pelos vãos do apartamento, pois é uma palavra que não quebra
espelhos, além disso, ela levita com a imensidão da lua quando há um rio
noturno e os teus joelhos se dobram à minha pulsão.
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Felizes dos gafanhotos que não pensam em nada a não ser em sobreviver.
ResponderExcluirMagnífico texto, gostei de ler.
Boa semana.
Um abraço.
A leitura de mundo do gafanhoto é a leitura de mundo de um gafanhoto.
ResponderExcluirUm abraço.
Apetece-me! A expressão tem origem do latim - appetescere,
ResponderExcluir(ter apetite) muito usado em Portugal . Abrasileirando diremos - 'estou com vontade', ' quero ou desejo muito'. Ou o contrário 'com esse calor, nada apetece-me' . Sim é um vocábulo bem bonito, quase lírico bem comum no português dos amigos portugueses.
E , já devaneando ... apetecer ,como dizes, tem o dom de levitar e quando apetece-nos, já estamos a mil por hora. , enquanto isso o gafanhoto já comeu todas as hortaliças da jardineira. rs
Abraços, Sant Anna
Amigo Jose Carlos, boa terça pascal|@
ResponderExcluirUma riqueza de sinetesias adorna seu texto precioso.
Estou em meio à ntureza e sei do que fala e sente estando nela.
Tenha dias pascais abençoados!7
Abraços fraternos
Olá Jose Carlos,
ResponderExcluirApetece-me ler seus escritos com tanta criatividade. Seus textos são leves que deslisam pelos meus olhos com a fome do gafanhoto. Bravo. Deixo um pouco de perfume, pois claro que não sou egoísta.
Belo dia ☺
Belo texto, como a leveza de um gafanhoto e das suas apetências.
ResponderExcluirBeijinhos.
É possível vermos e observarmos a vida nos mais pequenos pormenores da sua manifestção.
ResponderExcluirAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Ou "O Caderno de San"
ExcluirGafanhoto atrevido!
ResponderExcluirLeva-nos a ganhar asas e experimentar as delícias de outras datas e versões :
"Aqui tudo apetece me apetece!
Apetece ganhar a dimensão
transcendental que se adivinha e a tal sonoridade
que se cola no céu da boca"
E Rosa Lobato Faria segue a trilha: "Peguei, trinquei..."
Nos tempos dos Cadernos de Sam.
Texto lindo que não me canso de ler e apreciar, admirando a sua sensibilidade e talento.
Adorei, caro amigo José Carlos.
Abraço
Olinda
Também me apetece sentir a sonoridade, o aroma e o sabor da palavra com que levitas.
ResponderExcluirÉ um texto a pulsar poesia.
Um abraço
É desafiante viajar em palavras febris recheadas de humor.
ResponderExcluirE eu fico com um sorriso rasgado e até de algum conforto quando alguém anda à rasca a procurar, a procurar ...
Um abraço, José Carlos