domingo, 5 de abril de 2026

Apetece-me

 

  

Sejamos graves em gestos que não devaneiem; ou sejamos vastos ad libitum como se não houvesse mais nada além da alegria do olhar que entardece.

Mas sempre há uma novidade.

O gafanhoto parecia muito feliz. Ele não sabia que eu estava logo ali, na poltrona da sala, a observar pela vidraça o que acontecia do lado de fora, quando, por instinto, se afastou da nuvem que sobrevoava o prédio e pousou na pequena horta da minha jardineira.

E ficou imóvel. Parecia encoberto pelo véu da sua incerteza. 

Ele buscava reconhecer o admirável mundo novo à sua frente. Ao que parece, ele não sente falta dos companheiros, os que pairavam acima do alcance do meu olhar.

E apetece-me vê-lo agora se movendo lentamente (por enquanto me apetece) por entre minhas hortaliças. Sem pudor.

Vagarosamente, ele fareja com suas antenas o cheiro e sente o sabor de cada folha. E a sonoridade da palavra apetece me apetece, parece vir do alto, lá das nuvens. Deixo-a no céu da boca por alguns instantes. E depois digo em voz alta "apetece-me", enchendo o ar com suas vogais e consoantes. 

E deixo-a fagueira pelos vãos do apartamento, pois é uma palavra que não quebra espelhos, além disso, ela levita com a imensidão da lua quando há um rio noturno e os teus joelhos se dobram à minha pulsão. 

 

(José Carlos Sant Anna),
agosto, 2021.
Dos meus alfarrábios.

11 comentários:

  1. Felizes dos gafanhotos que não pensam em nada a não ser em sobreviver.
    Magnífico texto, gostei de ler.
    Boa semana.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  2. A leitura de mundo do gafanhoto é a leitura de mundo de um gafanhoto.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  3. Apetece-me! A expressão tem origem do latim - appetescere,
    (ter apetite) muito usado em Portugal . Abrasileirando diremos - 'estou com vontade', ' quero ou desejo muito'. Ou o contrário 'com esse calor, nada apetece-me' . Sim é um vocábulo bem bonito, quase lírico bem comum no português dos amigos portugueses.
    E , já devaneando ... apetecer ,como dizes, tem o dom de levitar e quando apetece-nos, já estamos a mil por hora. , enquanto isso o gafanhoto já comeu todas as hortaliças da jardineira. rs
    Abraços, Sant Anna

    ResponderExcluir
  4. Amigo Jose Carlos, boa terça pascal|@
    Uma riqueza de sinetesias adorna seu texto precioso.
    Estou em meio à ntureza e sei do que fala e sente estando nela.
    Tenha dias pascais abençoados!7
    Abraços fraternos

    ResponderExcluir
  5. Olá Jose Carlos,
    Apetece-me ler seus escritos com tanta criatividade. Seus textos são leves que deslisam pelos meus olhos com a fome do gafanhoto. Bravo. Deixo um pouco de perfume, pois claro que não sou egoísta.
    Belo dia ☺

    ResponderExcluir
  6. Belo texto, como a leveza de um gafanhoto e das suas apetências.

    Beijinhos.

    ResponderExcluir
  7. É possível vermos e observarmos a vida nos mais pequenos pormenores da sua manifestção.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

    ResponderExcluir
  8. Gafanhoto atrevido!
    Leva-nos a ganhar asas e experimentar as delícias de outras datas e versões :
    "Aqui tudo apetece me apetece!
    Apetece ganhar a dimensão
    transcendental que se adivinha e a tal sonoridade
    que se cola no céu da boca"
    E Rosa Lobato Faria segue a trilha: "Peguei, trinquei..."
    Nos tempos dos Cadernos de Sam.
    Texto lindo que não me canso de ler e apreciar, admirando a sua sensibilidade e talento.
    Adorei, caro amigo José Carlos.
    Abraço
    Olinda

    ResponderExcluir
  9. Também me apetece sentir a sonoridade, o aroma e o sabor da palavra com que levitas.
    É um texto a pulsar poesia.
    Um abraço

    ResponderExcluir
  10. É desafiante viajar em palavras febris recheadas de humor.
    E eu fico com um sorriso rasgado e até de algum conforto quando alguém anda à rasca a procurar, a procurar ...
    Um abraço, José Carlos

    ResponderExcluir

Metamorfose

                 Foto : arquivo pessoal Chove. São gotas inescapáveis na janela  que se dissolvem em espelho de vidro  onde o ontem e o agor...