sábado, 3 de janeiro de 2026

Do teu cântaro

 


Em meio
a um tormentoso frio
e em engasgada ânsia, 
ela diz
"és de mim que nasces",
imberbe,
vens mais perto, vens,
e beija-me, e beija-me,
e suplica-me no teu silêncio
e no sorriso que leva o brilho
aos teus olhos. 
 
E toca-me,
e beija-me,
e toma a minha caneta
em suas mãos,
massageando-a delicadamente
à beira de extravasar
o precioso líquido
enquanto as minhas mãos 
se expande pelo teu corpo,
onde me perco, onde me acho,
desenhando sílabas
que se enroscam vorazes,
impelindo-me
para dentro da tua mancha branca
quando sangram
às margens do teu cântaro
outras sílabas e palavras e suspiros.
E transpiro. E saboreio o canto, o ritmo,
a musicalidade no teu corpo,
do teu corpo, pelo meu corpo.
 
Trêfegas,
volto a desenhá-las
na página em fogo mais brando
e antevejo o longo fio 
costurando 
a face ainda oculta do poema 
que revela seus dentes 
ao se fazer e se refazer em minha medula 
e no desejo que me impele à salivação 
no vagar e nos afagos.
 
(José Carlos Sant Anna)
dezembro, 2025.
 

Do teu cântaro

  Em meio a um tormentoso frio e em engasgada ânsia,  ela diz "és de mim que nasces", imberbe, vens mais perto, vens, e beija-me, ...