Imagem Pixabay
Outra
vez.
Escancarei os olhos.
Na ponta dos sapatos uma mancha.
Se eu pudesse vê-la sem os óculos,
não saberia que era ketchup.
Estou sem teto. Já lhe disse?
Teresa não me deixou entrar em casa.
É incômoda a notícia de não
Escancarei os olhos.
Na ponta dos sapatos uma mancha.
Se eu pudesse vê-la sem os óculos,
não saberia que era ketchup.
Estou sem teto. Já lhe disse?
Teresa não me deixou entrar em casa.
É incômoda a notícia de não
poder entrar em casa. Saberei contorná-la?
A
mala é pequena, mas tem muitas
viagens nas costas.
Nela, não cabem as estranhezas em riste
a aumentar a dor na crise.
Incomodado eu ficaria
se não coubessem meus livros,
imponderáveis e leves. São poucos,
o que não me espanta, reflito.
Por saber-me somente lhes digo
viagens nas costas.
Nela, não cabem as estranhezas em riste
a aumentar a dor na crise.
Incomodado eu ficaria
se não coubessem meus livros,
imponderáveis e leves. São poucos,
o que não me espanta, reflito.
Por saber-me somente lhes digo
Não
é primeira vez que fico sem teto.
E não tenho medo, mas o bolso
está sem um puto para o olho da rua.
E se tenho a alma em chamas
o que faço para salvar
E não tenho medo, mas o bolso
está sem um puto para o olho da rua.
E se tenho a alma em chamas
o que faço para salvar
a poesia desse amor?
José Carlos Sant Anna,
11 de novembro de 2025

Querido Eros,
ResponderExcluirli teu texto com aquele nó manso que se forma quando a gente reconhece a verdade nua da palavra. Há uma solidão muito concreta aí, o chão, a mala pequena, o bolso vazio mas o que mais pesa é essa lucidez que não dramatiza, apenas constata.
A mancha de ketchup, os óculos, o não poder entrar em casa… tudo é dito com uma secura que dói mais do que o excesso. E os livros poucos, leves, imponderáveis, acabam sendo o verdadeiro teto possível. Quando tudo falta, a palavra ainda cabe.
Gosto dessa pergunta final que não pede resposta, apenas permanece: como salvar a poesia quando o amor virou incêndio? Talvez seja justamente escrevendo assim, sem pedir abrigo, que a poesia se salva sozinha.
Teu texto incomoda no melhor sentido: desloca, expõe, permanece.
Obrigada por essa partilha tão intensa e tão necessária
Beijinho
Nanda
Com a alma em chamas é impossível não salvar o amor. A porta há-de abrir-se para que volte de novo com toda a poesia que lhe cabe. Há-de encontrar o caminho do amor em que se procura mesmo que as estranhezas em riste aumentem a dor na crise. Muito belo!
ResponderExcluirMeu Amigo, desejo-lhe um Natal cheio de amor e um ano de 2026 com muita saúde e conforto.
Um beijo.
Quando se fecha uma porta, abre-se uma janela... uma outra oportunidade para se fazer à vida.
ResponderExcluirSem tecto, ele não cairá em cima.
Gostei muito desta poesia.
Votos de feliz Natal, com tudo a que tem direito, e ainda mais com toda a poesia do amor!
Beijinhos.
Boa tarde JC
ResponderExcluirO poema constrói uma narrativa de desalojamento físico e emocional, usando uma linguagem simples, quase prosaica, que reforça a sensação de precariedade.
Detalhes banais (como o ketchup nos sapatos) quebram qualquer dramatismo excessivo e tornam a dor mais real. A mala, os livros e a falta de dinheiro desenham um sujeito habituado à perda e à transitoriedade.
No final, a pergunta sobre “salvar a poesia desse amor” desloca o conflito para o plano artístico, mostrando que a maior ameaça não é apenas a ruptura afetiva, mas o que ela pode fazer à própria escrita.
Muito bem!
Boa semana!
Beijo.
:)
Li e reli, optei por fazer uma análise pormenorizada.
ResponderExcluirTrata-se de um poema de voz narrativa muito marcada, quase confessional, que se aproxima da prosa poética, mas preserva uma cadência fragmentada que sustenta a tensão emocional. O “eu” que fala não procura lirismo tradicional; opta por uma linguagem seca, quotidiana, por vezes abrupta, o que reforça a sensação de desamparo.
O poema constrói-se em torno de três eixos principais:
O corpo e o imediato
A mancha de ketchup na ponta dos sapatos inaugura o texto com um detalhe banal, quase ridículo, que desmonta expectativas trágicas. Esse gesto é inteligente: o poema recusa o dramatismo óbvio e instala-se numa precariedade concreta, doméstica.
O deslocamento / a perda do abrigo
O “ficar sem teto” não é apenas factual. É repetido, afirmado, quase normalizado, o que sugere reincidência, cansaço, uma vida marcada por ruturas. A mala pequena, carregada de viagens, funciona como metáfora de um sujeito habituado à transitoriedade.
A literatura como último reduto
Os livros surgem como objetos paradoxais: “imponderáveis e leves”, mas essenciais. Não são muitos , e isso não causa espanto ao sujeito poético. Aqui o poema faz uma reflexão silenciosa sobre a redução, a perda, e a seleção do que realmente importa quando tudo o resto falha.
O tom geral é de lucidez sem heroísmo. Não há vitimização nem catarse. O dinheiro falta, o amor arde, a casa fecha-se, e ainda assim o poema mantém uma postura quase estoica.
O verso final — “o que faço para salvar / a poesia desse amor?” — desloca a questão do plano emocional para o plano ético-estético. Não se trata de salvar o amor, mas de salvar a poesia dele. Isso revela uma consciência artística muito clara: a escrita não é refúgio automático, é algo que também pode ser contaminado pela perda.
Será que fiz a analise correcta? Nem sempre se consegue entrar no "trabalho poético# do autor.
Cumpromentos poéticos....
Li e reli seu comentário. Me comoveu. Ah, seu olhar de magister dissecou nos mínimos detalhes “o poema de voz narrativa muito marcada”, nada escapou do seu olhar (imagino encontrá-lo e me assustar de tão penetrante que ele é,) da sua análise que, retoricamente, pergunta: “será que a análise é correta?” Esta leitura é de quem guarda muita experiência de ler e escrever, de quem já rodou por longas estradas, de quem sabe reconhecer os caminhos da escrita trilhados pelo Outro. Às vezes, é uma saudade que nos encanta, outras, um abraço generoso, sobretudo quando nos surpreende diante de uma “prosa poética” que revela uma interrogação imensa. Muito agradecido pelos ventos semeados, sou gratíssimo pelo seu cuidado com o meu texto, dele você se tornou cúmplice, risos.
ExcluirUm abraço afetuoso,
Um poema forte e intenso, Com a alma em chamas pode se salvar de qualquer coisa inclusive o amor. Bravo poeta.
ResponderExcluirQue possamos aquecer nossos corações com
o clima de Natal e transmitir esse amor a todos que nos rodeiam.
Desejo boas festas e um Natal maravilhoso, cheio de esperanças e paz.
beijos
Boa noite, amigo José Carlos
ResponderExcluirComo sempre aqui estou eu, procurando destrinçar o que se
esconde por detrás das suas entrelinhas. É que o texto parece
levar-me num sentido e já na quarta linha leva-me para outro.
Tento não interpretar à letra porque sei, como diz nos marcadores,
que é invenção mas, ai de mim, também memórias.
E assim vou andando, procurando lidar com o abandono, com a falta
de tecto e sem puto, como se fosse sem-abrigo. Mala pequena com
pouca coisa, mas salvem-se os livros sem os quais não passa.
Mas ao fim e ao cabo venho aqui para conversar, para tomar contacto com a sua escrita e com o seu saber.
Quanto ao mais, meu caro amigo, resta-me desejar-lhe, desde já,
um Natal Feliz com os seus.
Beijinhos
Olinda
... memória...
ExcluirNão há receitas para salvar a poesia do amor...
ResponderExcluirMagnífico poema, gostei imenso.
Boa semana e um Feliz Natal.
Um abraço.
Paso José Carlos para desearte a ti y los tuyos unas Navidades con mucha magia, amor y amistad
ResponderExcluirte dejo un abrazo
Jose Carlos,
ResponderExcluirHoje venho desejar que
seus dias festivos sejam
em paz e alegres.
Bjins e Abraço
CatiahôAlc.
Vinicius de Moraes – “Poema de Natal”
“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses.”
Caro José Carlos
ResponderExcluirVenho aqui logo pela manhã, antes de ser engolida pela azáfama
familiar, para lhe desejar um NATAL ALEGRE, junto à família.
Beijos e abraços.
Olinda
Querido Eros,
ResponderExcluirque o Natal te encontre inteiro, em sintonia com o que sentes e com o que sonhas. Que esta noite traga pausas necessárias, pensamentos claros e a certeza de que há beleza mesmo nos caminhos que ainda estão sendo construídos.
Que a luz do Natal ilumine teus afetos, fortaleça tuas escolhas e te inspire a seguir com sensibilidade, coragem e verdade. Que o novo ano venha como um espaço aberto para crescer, amar e recomeçar.
Feliz Natal meu querido!
Fernanda