Foto: arquivo pessoal
Chove.
São gotas inescapáveis na janela
que se dissolvem em espelho de
vidro
onde o ontem e o agora são
inescapáveis também.
E o horizonte se dobra sobre a calçada,
e as janelas vizinhas se tornam
olhos lacrimejantes,
e a rua não é mais caminho, é apenas
fluxo,
e o asfalto se rende à vocação de rio
enquanto eu mantenho meus
rascunhos
longe do hálito de vidro para
que
não se tornem um indesejável borrão
ou não virem espuma
nas gotas em que a cidade se dilui.
Já não sei mais onde
termina
o vidro e começa o eu.
José Carlos Sant Anna,
15 de maio de 2026

Eros,
ResponderExcluirhá poemas que descrevem a chuva. O seu deixa a gente molhando por dentro.
Esse verso final não termina o texto ele abre uma rachadura:
“Já não sei mais onde termina o vidro e começa o eu.”
Porque, às vezes, a tristeza faz exatamente isso:
embaça as fronteiras daquilo que vemos e daquilo que somos. E enquanto a cidade escorre pelas ruas, teu poema escorre silenciosamente para dentro de quem lê.
Abraço
Nanda
Olá.
ResponderExcluirGostei muito dessa imagem da chuva ofuscando o vidro da janela, se tornando tempo, presente e passado! Não é essa mesma a sensação que temos a olhar uma janela em dia de chuva?
Aqui também chove, Sant Anna.
ResponderExcluirEssa chuva contínua provoca o sentimento de introspeção e as vezes embaralhamos o estado líquido com a rigidez do vidro. O pensamento escapa _como a água e o instante. Guardemos com carinho os rascunhos_ nossa metamorfose pessoal. Seu poema é bonito ,sensível, sutil e fica ecoando depois de lido .
Beijinhos e bom sábado.
Bom dia, José Carlos, a nostalgia presente nas gotas que fazem chorar o vidro da alma. Linda poesia. Muita luz e paz. Um ótimo final de semana. Abs
ResponderExcluirAmigo José Carlos, boa tarde de sábado!
ResponderExcluirUm poema/poeta em uníssono com o tempo lá fora e o cá dentro...
Tenha um final de semana abençoado!
Abraços fraternos
Senti a chuva, como se chovesse aqui e a água me escorresse pelas vidraças. E senti uma vontade enorme de introspeção, de entrar dentro de mim e deixar que a chuva me lavasse a alma. Tão belo, o seu poema, meu amigo José Carlos.
ResponderExcluirTudo de bom.
Um beijo.
E assim me diluí nesta chuva-poesia bela.
ResponderExcluirPor vezes ficamos assim imergidos na água que nos chove dentro, qual vidro da janela banhado pela chuva.
Beijinhos e boa semana!
Inescapáveis somos nestas gotas que povoam
ResponderExcluiro vidro das janelas. O que vejo em primeiro lugar
é o verde e o amarelo. Aumentei a imagem para
ver se era pintura ou natural. Fiquei na dúvida que
se esbateu quando vi que é foto pessoal. Mesmo
assim o foco das gotas que se esbatem na vertical
dos prédios fazem-me lembrar que o meu lugar
é entre os trópicos e o ártico, pela emoção que me
toma, essa imprecisão, esse quase nevoeiro que
me envolve como em Avalon de belas maçãs.
Nitidamente afastei-me do poema.
Agradeço-lhe muitíssimo os seus belos comentários
que me enriquecem e que tanto adoro.
Dias felizes, amigo José Carlos.
Beijinhos
Olinda
Um magnífico poema, terminado com chave de ouro.
ResponderExcluirBoa semana caro José Carlos.
Um abraço.
O vidro não impede visualizar a paisagem, mas pode fazer distorcer a imagem.
ResponderExcluirAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Olá, José Carlos, eu adoro a chuva no vidro, a vejo de vez em quando, pois o panorama lá fora vejo a toda hora, mas essa chuvinha, não!
ResponderExcluirLembro de quando criança, saíamos de dentro de casa para brincar na chuva, hoje não vejo mais isso! As crianças ficam no celular...
Belo poema, querido amigo/poeta.
Uma feliz semana, com muita paz e criatividade, essa nunca lhe faltou, é de fé! rsssss
Beijo, amigo
Boa tarde JC
ResponderExcluirUm poema de delicada melancolia, onde a chuva deixa de ser apenas cenário e transforma-se numa extensão do próprio eu.
A fusão entre o vidro, a cidade e a identidade cria imagens muito sensoriais e fluidas, quase cinematográficas.
Gostei particularmente da forma como os “rascunhos” surgem como tentativa frágil de preservar algo íntimo diante da dissolução do mundo exterior e talvez interior também.
O verso final encerra o poema com grande força e subtileza reflexiva.
Deixo um beijo
:)
https://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/