sexta-feira, 15 de maio de 2026

Metamorfose

 

            Foto: arquivo pessoal

Chove.

São gotas inescapáveis na janela 

que se dissolvem em espelho de vidro 

onde o ontem e o agora são inescapáveis também.

 

E o horizonte se dobra sobre a calçada,

e as janelas vizinhas se tornam olhos lacrimejantes, 

e a rua não é mais caminho, é apenas fluxo,

e o asfalto se rende à vocação de rio

 

enquanto eu mantenho meus rascunhos 

longe do hálito de vidro para que 

não se tornem um indesejável borrão

ou não virem espuma 

nas gotas em que a cidade se dilui.

 

Já não sei mais onde termina 

o vidro e começa o eu.

 

                José Carlos Sant Anna,

                15 de maio de 2026

12 comentários:

  1. Eros,

    há poemas que descrevem a chuva. O seu deixa a gente molhando por dentro.
    Esse verso final não termina o texto ele abre uma rachadura:
    “Já não sei mais onde termina o vidro e começa o eu.”
    Porque, às vezes, a tristeza faz exatamente isso:
    embaça as fronteiras daquilo que vemos e daquilo que somos. E enquanto a cidade escorre pelas ruas, teu poema escorre silenciosamente para dentro de quem lê.

    Abraço
    Nanda

    ResponderExcluir
  2. Olá.

    Gostei muito dessa imagem da chuva ofuscando o vidro da janela, se tornando tempo, presente e passado! Não é essa mesma a sensação que temos a olhar uma janela em dia de chuva?

    ResponderExcluir
  3. Aqui também chove, Sant Anna.
    Essa chuva contínua provoca o sentimento de introspeção e as vezes embaralhamos o estado líquido com a rigidez do vidro. O pensamento escapa _como a água e o instante. Guardemos com carinho os rascunhos_ nossa metamorfose pessoal. Seu poema é bonito ,sensível, sutil e fica ecoando depois de lido .
    Beijinhos e bom sábado.

    ResponderExcluir
  4. Bom dia, José Carlos, a nostalgia presente nas gotas que fazem chorar o vidro da alma. Linda poesia. Muita luz e paz. Um ótimo final de semana. Abs

    ResponderExcluir
  5. Amigo José Carlos, boa tarde de sábado!
    Um poema/poeta em uníssono com o tempo lá fora e o cá dentro...
    Tenha um final de semana abençoado!
    Abraços fraternos

    ResponderExcluir
  6. Senti a chuva, como se chovesse aqui e a água me escorresse pelas vidraças. E senti uma vontade enorme de introspeção, de entrar dentro de mim e deixar que a chuva me lavasse a alma. Tão belo, o seu poema, meu amigo José Carlos.
    Tudo de bom.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  7. E assim me diluí nesta chuva-poesia bela.
    Por vezes ficamos assim imergidos na água que nos chove dentro, qual vidro da janela banhado pela chuva.

    Beijinhos e boa semana!

    ResponderExcluir
  8. Inescapáveis somos nestas gotas que povoam
    o vidro das janelas. O que vejo em primeiro lugar
    é o verde e o amarelo. Aumentei a imagem para
    ver se era pintura ou natural. Fiquei na dúvida que
    se esbateu quando vi que é foto pessoal. Mesmo
    assim o foco das gotas que se esbatem na vertical
    dos prédios fazem-me lembrar que o meu lugar
    é entre os trópicos e o ártico, pela emoção que me
    toma, essa imprecisão, esse quase nevoeiro que
    me envolve como em Avalon de belas maçãs.
    Nitidamente afastei-me do poema.
    Agradeço-lhe muitíssimo os seus belos comentários
    que me enriquecem e que tanto adoro.
    Dias felizes, amigo José Carlos.
    Beijinhos
    Olinda

    ResponderExcluir
  9. Um magnífico poema, terminado com chave de ouro.
    Boa semana caro José Carlos.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  10. O vidro não impede visualizar a paisagem, mas pode fazer distorcer a imagem.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

    ResponderExcluir
  11. Olá, José Carlos, eu adoro a chuva no vidro, a vejo de vez em quando, pois o panorama lá fora vejo a toda hora, mas essa chuvinha, não!
    Lembro de quando criança, saíamos de dentro de casa para brincar na chuva, hoje não vejo mais isso! As crianças ficam no celular...
    Belo poema, querido amigo/poeta.
    Uma feliz semana, com muita paz e criatividade, essa nunca lhe faltou, é de fé! rsssss
    Beijo, amigo

    ResponderExcluir
  12. Boa tarde JC
    Um poema de delicada melancolia, onde a chuva deixa de ser apenas cenário e transforma-se numa extensão do próprio eu.
    A fusão entre o vidro, a cidade e a identidade cria imagens muito sensoriais e fluidas, quase cinematográficas.
    Gostei particularmente da forma como os “rascunhos” surgem como tentativa frágil de preservar algo íntimo diante da dissolução do mundo exterior e talvez interior também.
    O verso final encerra o poema com grande força e subtileza reflexiva.
    Deixo um beijo
    :)
    https://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

    ResponderExcluir

Arroz doce

       Ela ainda sentia o lume do arroz-doce. Maricota ficou horas deitada com seu cheiro de hortelã espalhado, o olhar perdido ora no lustr...